Entrevista com Teresa Poester: “A gente acha que vai transformar o mundo e o mundo acaba transformando a gente”

Na entrevista concedida para o site Mulheres na Arte Contemporânea, a artista e professora Teresa Poester fala sobre diversos temas que permeiam sua trajetória, como desenho, abstração, grupos de trabalho como o d43 e Passos Perdidos, participação no desenvolvimento da Arte Postal, as temporadas na Europa e a atuação em outros campos da criação, como a ilustração e arte gráfica. Além disso, Poester também comenta sobre a participação das mulheres na academia e na história da arte, bem como sua própria experiência em movimentos políticos na década de 70.

Por que o desenho? Como começou tua história com ele?

Eu sou de Bagé, do interior do Rio Grande do Sul. Eu morava em uma casa com um pátio muito grande, uma cidade pequena. Como minha mãe havia morado durante a juventude no Rio, ela não queria que ficássemos pra sempre em Bagé e quis vir para uma cidade grande. Então viemos todos – ela, meu pai e os quatro filhos – para Porto Alegre. Eu tinha 8 anos nessa época. Vim desse ambiente de um pátio enorme, onde brincava com a natureza e tudo ao meu redor e cheguei em Porto Alegre, no Colégio Farroupilha, alemão, mais rígido. Foi um momento muito difícil, eu me sentia isolada no colégio. Tinha outra cultura, origem italiana, cabelo crespo e sotaque do interior. Então, minha mãe me colocou na Escolhinha de Artes da UFRGS, e ali foi o primeiro lugar em que eu me senti acolhida em Porto Alegre. Na Escolinha, eu via o pessoal do Instituto de Artes desenhando modelos e decidi ali, com 10, 11 anos, que era aquilo que eu queria fazer. Depois fiz outras coisas antes, fiz Matemática.

E como a paisagem entrou nessa história?

A Icléia Cattani uma vez, escrevendo sobre o meu trabalho, disse que eu levava a paisagem comigo. De uma certa forma, é isso mesmo. A gente sabe que muito da arte nasce da falta, da tentativa de suprir uma falta que, na verdade, a gente nunca supre. Essa falta é esse pátio da infância que eu nunca mais tive. Essa sensação de pertencimento. Eu lembro que quando criança, antes de vir para Porto Alegre, fui no pátio e olhei muito para uma árvore. Olhei pra ela e pensei: “Tenho que olhar e gravar muito bem essa imagem porque essa árvore nunca mais vai ser minha. Eu nunca mais vou vê-la, ela tem que ficar na minha memória”. O próprio mito do desenho nasce da falta, da sombra, de contornar a sombra de um amor ausente, de alguma coisa que não existe mais e que a gente quer conservar.

Como tu vês essa relação da paisagem e da abstração?

Foi um tema muito recorrente no meu trabalho teórico. Foi no mestrado e no doutorado que aprofundei o estudo sobre isso, porque, na verdade, naquela época, eu não encontrava nenhum texto mais específico sobre essa relação. Comecei a perceber que os primeiros abstratos – quando a gente fala em abstração é muito vago, porque sempre existiu abstração, desde o neolítico, então aqui eu falo de um abstracionismo com início no século XX com artistas como Kandinsky, Paul Klee, Mondrian – eles foram antes paisagistas, e não retratistas, por exemplo. Em pesquisa: onde tem fumaça, tem fogo. Comecei a pesquisar e encontrei uma série de razões pelas quais a paisagem se presta à abstração. As intempéries, o fato de que nunca podes contar com um modelo fixo – estás dentro do modelo, e não diante do modelo, enfim a paisagem é mais um motivo do que um modelo, como diz o historiador Argan . É mais um pretexto para a pintura. A arte ocidental européia priorizou por muito tempo as cenas religiosas e épicas enquanto a paisagem ficava em um plano de fundo, ao contrário do que acontecia no Oriente. Então, como pano de fundo, o pintor tinha mais liberdade, não tinha aquele compromisso de retratar as figuras. E, tendo mais liberdade, ele tinha mais possibilidades de, pouco a pouco, abstrair.

Sem título
Técnica mista sobre papel
Peça única
160 X 480 cm
2014

Tu tens um trabalho muito ativo com o grupo Ateliê D43. O que esses momentos de partilha e de trocas proporcionam para o artista?

Acho muito importante a experiência de grupo. Agora isso está voltando com coletivos. Por exemplo, trabalhar a quatro mãos, a seis mãos, faz com que a gente aprenda com o outro, com que a gente tenha que resolver problemas em conjunto, porque trabalhar com arte é sempre resolver problemas que não existem. Não existe problema, tu estás inventando um problema pra ti. Na folha de papel, no momento em que colocas um ponto ali, tens que resolver aquele ponto. Ele ocupa um lugar, tem uma implicação, não é neutro. No momento em que é o outro que coloca esse problema pra ti, tu tens que resolver um problema que não foi nem causado por ti. Pra mim foi muito importante trabalhar com os outros. Esse tipo de trabalho também questiona isso da autoria individual, da unicidade. Teu trabalho não é tão teu, por vários aspectos. Ele é uma somatória de tudo que já viste, de tudo que aprendeste, de todas as viagens, etc. Porque a gente não domina tanto o trabalho, às vezes o trabalho nos domina.

Como foi tua experiência com a Arte Postal?

A Arte Postal teve uma atuação política grande, ajudou muitas pessoas na época da ditadura porque havia uma circulação muito grande. Eu te mandava uma coisa, tu interferias, mandavas pra outra pessoa, e assim ia. Então se criou uma rede mesmo. Eu lembro que o Jesus Escobar, que era do nosso grupo e muito ativo aqui, havia sido sequestrado quando voltou para El Salvador. O envolvimento dele com a Arte Postal foi importante para sua libertação, porque quando ele foi sequestrado, muita gente mandou cartas, fizeram exposições dele em vários lugares do mundo, houve uma mobilização. Ele foi mandado ao México, ficou muitos anos lá. E quando pode, voltou para El Salvador, onde está hoje.

Heloísa Schneiders e eu colocamos no lixo muitas coisas de Arte Postal, malas cheias de coisas. Hoje há vários colecionadores querendo comprar isso. A gente achava que aquilo não importava. O que importava era o processo, não o produto. Nós organizamos a primeira exposição de Arte Postal do Rio Grande do Sul. Foi uma mostra grande, ocupou toda a Pinacoteca do Instituto de Artes. Depois que acabou, ficamos olhando e pensando se aquilo tinha sentido na parede. Porque aquilo não era trabalho para ir na parede. Não tinha sido feito para isso. Um tempo depois, a Bienal de São Paulo fez todo um andar de Arte Postal. E as pessoas que genuinamente tinham iniciado a Arte Postal perguntavam-se se era para aquilo que estavam trabalhando. Arte Postal era justamente pra veicular a arte por outros meios, uma filosofia bem “fora do circuito”. Depois eu parei porque chegou uma época em que eu não estava mais dando conta. Era tanta coisa recebida pelo correio e tanta coisa pra responder que eu não tinha mais tempo para outras coisas. E sempre dava aula! Então eu fui parando, isso lá por 1983.

Quem mais estava contigo nessa época?

Quando eu entrei no Instituto de Artes, com 21 anos, eu fiquei amiga da Heloísa Schneiders, do Jesus Escobar, da Simone Michelin, do Elton Manganelli, do Leopoldo Plentz, da Jovita Sommer, da Karin Lambrecht, do Renato Heuser, da Bia Fleck e vários outros. Era uma turma grande. Somos amigos, quase todos, até hoje. E inventávamos muitas coisas. Fizemos um álbum chamado Relinguagem. Teve o Relinguagem 1, o Relinguagem 2, etc. Convidamos a Vera Chaves Barcellos para participar de uma edição e depois a Vera nos chamou para o Espaço N.O. O Jesus já havia entrado em contato com o Bené Fonteles e o Paulo Bruscky, e começamos a trabalhar também com arte postal. Mas, ao mesmo tempo, sempre trabalhei com desenho, fazia cartões postais, enfim, fiz diversas experiências. Era tudo pelo prazer de desenhar, uma certa ingenuidade bonita de trabalho.

Teresa Poester

www.teresapoester.com.br

E como foram as tuas estadias na Europa?

Foram quase 10 anos. Primeiro, fiquei dois anos na Espanha. Depois, fui para França, onde fiquei quatro anos em Paris para fazer doutorado e depois em outro período morei três anos em Eragny-sur-Epte, que fica perto de Paris.

Por fotos, vi que Éragny-sur-Epte, na França, é parecida com o Pampa gaúcho, Bagé. Fizeste esta relação enquanto estavas lá?

Exatamente. Interessante tu falares isso, porque quando eu cheguei lá, pela primeira vez, me deu uma emoção muito grande, parecia que eu estava voltando para Bagé. Aqueles campos numa paisagem plana que também há no Pampa. Não há montanhas. Estes 10 anos no exterior foram muito importantes. Eu cheguei na Espanha, por exemplo, quando Franco havia morrido e o país estava com um governo socialista. Era a época da movida madrilena, Almodóvar surgindo, toda uma efervescência cultural, centros de arte. Peguei, por exemplo, a inauguração do Museu Reina Sofia. Foi muito rico este tempo em Madrid, embora eu tenha ficado lá só 2 anos. Fiz muitos amigos e descobri a Europa. Na França também, embora os franceses sejam bem diferentes dos espanhóis.

Teresa Poester

da série Grades / Jardins , Paris, 2002, lápis grafite sobre papel 150×150 cm

Tu chegaste atuar com ilustração nos anos 1980. Era um trabalho muito diferente do de artista?

Era. Até hoje faço algumas ilustrações para algum projeto específico, mas é raro. Nesse período, 1980, trabalhei para alguns jornais. Na época, eu tinha feito uma exposição no Espaço IAB, que era um espaço legal. Era um lugar muito bom de ir e conviver – tinha bar, galeria de arte, livraria, um espaço de teatro. Os artistas se encontravam por lá. Então o Jaca, que é um grande ilustrador e trabalhava em alguns jornais daqui, foi na exposição e gostou dos meus desenhos. Eles eram muito agressivos e foi isso que ele mais gostou. Ele me perguntou se eu não queria trabalhar para certos jornais. E era muito interessante porque tu fazias o desenho e no dia seguinte estava na casa de todo mundo. Hoje isso é comum, tu fazes um desenho e já podes colocá-lo online para todo mundo ver, mas naquela época o tempo era outro e não havia essa difusão. Então tinha uma comunicação imediata. Por um lado era bom, mas por outro era meio perigoso – um desenho com o qual eu não ficasse contente precisava estar no jornal no dia seguinte, o nível de exigência era determinado pelo prazo.

Teresa Poester

www.teresapoester.com.br

Em “Why have there been no great women artists ?”, de 1971, Linda Nochlin argumenta que o pouco reconhecimento das mulheres na história da arte resultava de fatores sociais e institucionais, em especial o acesso desigual às condições de formação artística. Como era o contexto do acesso à formação acadêmica em artes visuais que tu presenciaste em 1977? Havia já muitas mulheres?

Na época em que eu era estudante, tenho a impressão de que havia uma porcentagem maior de mulheres no Instituto de Artes do que há hoje nas turmas em que dou aula. Talvez houvesse mais mulheres porque muitas seguiam a carreira de professora ou porque muitas faziam o curso mais como hobby. Os homens, em geral, iam para a publicidade. Foi o que aconteceu com os meus colegas homens. Acho que hoje há mais rapazes porque as possibilidades foram ampliadas com o design, com webdesign, etc…, mas a maioria ainda é mulher. Talvez porque a necessidade do homem ainda esteja atrelada a ganhar dinheiro, sustentar a casa, enfim, ainda estamos em uma sociedade machista.

Tu achas que o cenário artístico reflete o machismo que há na sociedade?

O machismo não é uma prerrogativa masculina. Assim como a mulher tem um “destino” construído por um tipo de sociedade, o homem também tem. Penso que os homens também podem ser vítimas disso, principalmente um homem mais sensível. É uma pena que essas discriminações raciais, de orientação sexual, ou intolerância religiosa, hoje em dia pareçam estar crescendo em regimes fundamentalistas. Penso que, quanto mais avança o materialismo selvagem ocidental, mais cresce uma postura anti-ocidente e fundamentalista, uma coisa em reação à outra, e vice versa, como uma bola de neve.

E em relação à participação das mulheres na história da arte?

Sobre este aspecto, há o fato interessante de eu ter presenciado a vernissage da exposição Elles@centrepompidou, em 2009, que foi um marco. Foi muito curioso pelo seguinte: todo ano, o Beaubourg, como é conhecido o Pompidou, faz uma montagem grande do acervo a partir de um determinado tema. Em 2009, eles resolveram fazer essa exposição só com mulheres do acervo. Foi uma exposição muito comentada em todas as revistas de arte etc…. Teve gente que achou maravilhosa, teve gente que achou horrível essa coisa de separar por gênero uma exposição. Teve muita crítica, muito elogio, etc. E , como sempre acontece, o Beaubourg “dita”, de certa forma, um tema, e gera um eco em várias galerias que estão ali na volta. Eu mesma participei da exposição Les filles (As moças) com 10 artistas mulheres. Essas coisas são delicadas. Penso que é delicado, por exemplo, dizer que a Clarice Lispector fez literatura de mulher. Todos nós temos aspectos femininos e masculinos. Mas, existe, inegavelmente, um mundo da arte e da ciência, do saber, que foi muito mais masculino até um determinado período da história. A presença das mulheres na História da Arte é muito recente, elas aparecem praticamente depois da Segunda Guerra Mundial. E não é que não existissem mulheres antes. Tenho um livro, “A History of Women In The Arts”, que apresenta artistas mulheres desde a pré-história! A Enciclopédia Britânica lançou uma coleção que mostra a anti História da Arte, em que apresenta aquilo que não veio à tona, e ali tem mulheres sobre as quais que a gente nunca ouviu falar. É a história dos esquecidos. Essa exposição, Elle, permite que, ao menos, possamos pensar sobre o assunto, pois não querer nem que a gente pense sobre isso já é um preconceito. Será que essas mulheres têm determinadas características em comum? Não têm? Vamos ver, vamos discutir. Se aconteceram tantas exposições apenas de artistas homens durante tantos séculos da História da Arte, por que não pode haver uma exposição só de mulheres? Claro que não vamos querer fazer apenas exposições deste tipo, mas não vejo como um problema fazer uma exposição em que se possa pensar estes aspectos.

Durante tua juventude nos anos 1970 tu pensavas sobre essas questões do feminismo?

Sim, muito, até mais do que hoje em dia. Naquela época, claro, eu era mais jovem e mais idealista. Eu morava no Rio e convivi com alguns amigos de esquerda, que eram engajadas na luta contra a Ditadura. Quando os intelectuais voltaram do exílio, nós fomos assistir. Aqui em Porto Alegre, trabalhei no movimento das Diretas Já, e também no início do PT. Eu era mais engajada, sem dúvida. De certa forma, a gente acha que vai transformar o mundo e o mundo acaba transformando a gente. Naquela época, eu acreditava mais em grandes rupturas. Hoje, se eu puder fazer alguma coisa pelo meu pequeno mundinho e ajudar alguns alunos, já estou satisfeita.

E como tu vês a participação das mulheres na docência?

Vejo que há um número grande de homens que dão aula e acho que isso é muito legal. Penso que quando o mundo se transforma, é bom para as mulheres e para os homens. Assim como a mulher está assimilando determinadas funções que antes eram masculinas, o mesmo acontece com o homem, que está assimilando funções que eram entendidas como femininas, e está conseguindo aceitar que determinados sentimentos, antes considerados femininos, podem ser absolutamente vividos de uma forma mais inteira, mais completa. A licenciatura, que antes era mais ligada à feminilidade, hoje tem uma boa participação de homens e há mais tranquilidade por parte deles em assumir essas funções. Ao mesmo tempo, se tu vês o surgimento das academias de arte no século 16, 17, os professores eram todos homens. Então esse papel já existia na arte.

Série “Jardins d’Eragny”
Caneta BIC sobre papel
Peça única
150 X 150 cm
2009

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