Entrevista com Daria Dorosh: “Penso que nós ainda não entendemos direito a definição cultural sobre gênero”

Integrante do grupo que fundou a primeira cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos, a A.I.R., em 1972, a artista Daria Dorosh fala, na entrevista abaixo, sobre o contexto dos anos 70 e da criação da organização feminista, além de tangenciar temas como a cultura Do It Yourself, os desafios da arte contemporânea e sua produção artística que culminou, em 2015, em sua 17ª exposição individual na A.I.R.. Dorosh também coloca em debate questões sobre os atuais entendimentos do feminismo: “Hoje há movimentos de auto-determinação de gênero, feministas que não são mulheres, e muitas outras formas de pensar. Como artistas feministas, eu acho que temos que rever sempre: qual é a nossa agenda? Qual é a nossa missão? São perguntas difíceis, mas muito poderosas.”

A entrevista com Daria Dorosh fez parte do projeto “Mulheres na Arte Contemporânea – A.I.R. Gallery”, desenvolvido em Nova York entre abril e julho de 2015 pela jornalista Isabel Waquil.  Contemplado no Edital Conexão Cultura Brasil Intercâmbios 01/2014, o projeto consistiu em uma pesquisa realizada através do método da entrevista sobre a A.I.R. Gallery, a primeira cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos.

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ISABEL WAQUIL: Você é uma das co-fundadoras da A.I.R. Como era a atmosfera naquela época?

DARIA DOROSH: Havia uma grande de agitação política na década de 1960, com grandes reflexões sobre vários assuntos – a Guerra do Vietnã, igualdade de raças, desigualdade de classes. E finalmente essas reflexões chegaram às questões de gênero. Porque as mulheres que estavam lutando por justiça social perceberam que os homens não as viam como iguais, que não estavam sendo levadas a sério. E aquilo vinha de muitos anos. Assim, na década de 1970, as mulheres começaram a experimentar vários tipos de organizações. Havia duas mulheres que fundaram o conceito da A.I.R. – Barbara Zucker e Susan Williams. Eles se reuniram, olharam os dados em um registro de mulheres artistas e chamaram 20 artista que tinham interesse em começar uma galeria de arte feita por artistas mulheres. Foi um pouco assustador, mas foi emocionante também. O mais surpreendente para mim foi ver como mulheres artistas reunidas ficaram capazes. Quando essas 20 mulheres se reuniam, você podia ver que as habilidades do grupo eram bastante surpreendentes. Eu ainda acredito nisso como um modelo para hoje. Qualquer grupo pode ser criado – basta olhar para as habilidades coletivas e ver onde você pode contribuir.

Como funciona essa estrutura cooperativa? Ela mudou ao longo dos anos?

O modelo é muito simples. Eu acho que é difícil perceber como é importante não esperar que alguém cuide de você. Acho que é difícil especialmente para as mulheres. A ideia do Do It Yourself (DIY) é não estar à espera de alguém que vá cuidar de você. Mulheres estão acostumadas a serem cuidadas, é sua barganha histórica com os homens. O modelo cooperativo é simples: você olha para as suas despesas, você olha para os números, você faz a matemática e descobre o quanto todos precisam contribuir para financiar o projeto. No começo era muito pouco, porque ninguém ganhava muito dinheiro e os espaços eram muito baratos. A Lower Manhattan estava vazia, com lotes de espaços industriais para alugar.

Eu estava lendo os documentos da A.I.R. na Fales Library e ali dizia que o aluguel da A.I.R. no SoHo, na década de 70, era de 350 dólares!

Sim! As mensalidades que nós pagávamos eram em torno de 35 dólares por mês. Mas, com o tempo, uma vez que reinventaram os espaços vazios no SoHo e as revistas viram como estes espaços poderiam ser magníficos – os lofts – os artistas começaram a ser perseguidos pelo aumento dos preços dos aluguéis e é assim desde então.

Você acha que os objetivos da A.I.R. mudaram ao longo dos anos?

Eu acho que o objetivo principal, que é ter um lugar para dar visibilidade às mulheres artistas, nunca mudou. Outro objetivo que também não mudou é não julgar a ideologia feminista ou estilo artístico das mulheres artistas, mas se concentrar em um bom trabalho e encontrar as artistas que estão empenhadas em participar como iguais na galeria para manter a organização existindo. Estes objetivos não foram alterados. O que mudou é o mundo que nos rodeia. Mas eu acho que nós poderíamos estar abertas a algumas revisões. A questão de gênero foi muito clara no passado, mas para os jovens de hoje essa questão não é tão clara. Há movimentos de auto-determinação de gênero, feministas que não são mulheres, e muitas outras formas de pensar. Como artistas feministas, eu acho que temos que rever sempre: qual é a nossa agenda? Qual é a nossa missão? São perguntas difíceis, mas muito poderosas. Todos os anos alguém nos pergunta: vocês acham que ainda precisam de uma galeria de mulheres?

E por que você acha que a A.I.R. ainda é necessária?

Porque ainda há questões não resolvidas, como, por exemplo: há muitos artistas bons hoje em dia, mas poucas instituições para cuidar de seus trabalhos. E, até agora, o foco em ajudar os artistas tem sido principalmente em seu desenvolvimento e em seus anos iniciais, e não em preservar o legado destes artistas quando eles ficarem velhos. Então, queremos ter um legado cultural da geração dos anos 1960, pré-geração digital, que está indo embora, mas há poucas ideias sobre como fazer isso, o que fazer com o trabalho desta geração.

Alguma vez você já consideraram ter homens como membros da A.I.R.?

Não. Penso que nós ainda não entendemos direito a definição cultural sobre gênero, embora eu ache que nós perdemos por não ter um público ainda totalmente integrado. Mas, primeiro, teríamos que definir o nosso feminismo de forma diferente. E eu acho que o problema é que gerenciar a galeria já dá tanto trabalho que ainda estamos esperando essa conversa chegar. Além disso, eu não sei quem está preparada para isso. Eu não sei o que as artistas pensam sobre isso. Não tanto quanto aos homens, mas sobre qual é a nossa definição atual de feminismo. Ela precisa ser aberta novamente.

É comum ouvir a interpretação de que essas práticas artísticas apenas de mulheres também estão isolando as artistas. O que você pensa sobre essa ideia? 

Eu não sei se elas isolam tanto no sentido de colocar as mulheres à parte do momento em que estamos, mas quando a evolução destas normas de gênero terminar – é um processo – eu acho que, em seguida, nós vamos ter que redefinir a nossa posição. Porque agora, as redes dominam a era digital – pequenas redes de colaboração, como quatro caras em uma garagem que mudaram o mundo criando software e hardware. Mudança significativas podem levar muito mais tempo para acontecer do que pensamos, porque as pessoas no topo daquele sistema antigo não imaginam que elas também precisam mudar. E culturas diferentes têm seus próprios problemas de gênero. Mas eu acho que nós temos que tomar cuidado com esse modelo passado. Eu vejo como problema esse modelo binário, baseado na crença em rico/pobre, masculino/feminino, superior/inferior, branco/preto. É uma escolha entre isso ou aquilo. Este é um modelo antigo da Revolução Industrial que não se encaixa na era digital pós-moderna.

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Daria Dorosh – Mercurial Guide. 2012, Portable textile sculpture, 3″ x 20″ x 7”. Fonte: A.I.R. Website

Meredith Brown escreveu sobre a A.I.R. e cita uma série de outras iniciativas que foram inspiradas no modelo da A.I.R. mas que não sobreviveram. Por que você acha que a A.I.R. é um caso de sucesso?

Essa é uma boa pergunta. Em primeiro lugar, eu daria este crédito à simplicidade do modelo da A.I.R.. Em segundo, eu passei a acreditar que Nova York é uma cidade mundial, que até agora manteve um carácter especial. Há tantas nacionalidades vivendo aqui que respeitamos estas diferenças. Você tem que viver com a diferença, aceitá-la. Assim, nosso feminismo não teve como base apenas uma ideologia que poderia se desatualizar. Nova York ainda atrai jovens de todos os lugares. Deve haver razões para isso. Talvez o nosso feminismo seja  mais sobre a liberdade – a liberdade de ser fiel a si mesmo. E talvez haja um outro fato: penso que Nova York é uma cidade que nunca está terminada, está sempre em construção. Por isso, você sente que nunca terminou, a história nunca termina.

A A.I.R. teve momentos de crise?

Claro. O dinheiro sempre foi uma questão difícil. Quando nos mudamos da rua Wooster para a Crosby foi porque não podíamos mais pagar o aluguel. Mas as relações em torno do dinheiro “sugam todo o ar na sala”, como se costuma dizer. A coisa toda se torna sobre o dinheiro. É lamentável que custe muito dinheiro para fazer esse tipo de iniciativa em Nova York. Mas eu acho que isso pode ser feito, eu acho que você pode fazer projetos com qualquer orçamento. Você não precisa copiar a  A.I.R., você toma a ideia do modelo: uma rede, um número de pessoas, e vê o que você pode pagar com isso, o que você pode fazer com esse conjunto de habilidades.

Meredith Brown, ainda neste artigo, diz que estas iniciativas costumavam ter dois grupos, as “revolucionárias” – que queriam transformar a sociedade contemporânea, e as “reformistas”, que buscavam melhorias na estrutura social existente. Você viu isso na A.I.R.?

Não tenho certeza. Eu não li o livro de Meredith, então eu não sei como ela usou o que ela encontrou em sua pesquisa. Mas é uma análise interessante. Eu gostaria de saber como essas duas estratégias repercutiram, para ver se elas trouxeram as mulheres para um lugar melhor ou se elas pararam em obstáculos. Para alguém como eu … trabalhar no limite é importante. Trabalhar sempre à margem, e não no centro. Não se distrair com o mainstream. Também ser mais analítico sobre o passado. Olhando para trás, a partir de onde estou agora, eu acho que a igualdade para mulheres não foi possível porque nosso sistema é baseado em “ganhadores / perdedores”, “preto / branco”, etc. Não há um modelo econômico para o preto / branco / cinza / rosa / laranja. Se esse sistema se alimenta de vencedores e perdedores, as mulheres entrando no círculo de vencedores não muda nada. Você ainda tem o mesmo sistema. Eu acho que nós temos que reinventar todo o sistema. Temos que encontrar uma narrativa diferente para a arte. Às vezes me pergunto … mesmo em relação à venda de trabalho, você apenas passa o problema do legado cultural para outra pessoa. Porque você vai morrer, eles vão morrer … e então o que acontece com o legado cultural? Isso é algo sobre o qual aqueles que amam a arte tem que pensar. Apenas vender o trabalho, fazendo alguns dólares, não é o suficiente, porque não há dinheiro suficiente para a maioria das pessoas e não é algo garantido de um ano para outro. Um ano você pode vender, no próximo ano nada. Isso não é uma vida segura. Isso é insustentável. Precisamos olhar para tudo isso e chegar a um novo sistema que respeite artistas e preserve a cultura.

Você acha que hoje há um senso de comunidade entre as mulheres, em geral?

Sim. Penso que as mulheres já não são criadas da mesma maneira como antigamente. Quando eu era jovem, a mensagem era que as mulheres deveriam competir entre si. Nos filmes antigos, as mulheres não tinham nada a fazer a não ser encontrar um parceiro de casamento. Eles não foram incentivadas a trabalhar em conjunto. Os homens sempre trabalharam em equipe. Eles se destacam em trabalho de equipe empresarial, militar, esportiva. Talvez eles não sejam tão bons em relacionamentos, mas com equipes ele são muito bons. As mulheres agora têm visto que pode ser bom estar em uma equipe, onde todas são iguais e o trabalho é baseado naquilo que cada uma pode trazer para o grupo. Acho que as mulheres aprenderam muito e percorreram um longo caminho até aqui, desde os anos 1950.

Você acha que o mundo da arte ainda é tão sexista como antes?

Eu acho que o mundo da arte não sabe o que ele é hoje. Antes você poderia dizer: “Este artista é um gênio!”. “Este homem é o melhor entre 300!”. Qual é a história de uma cultura digital pós-moderna de telefones celulares e selfies? Qual é a nova narrativa? Tudo se transformou mais de cem vezes nessa era da informação. Eu acho que a concorrência é um tipo de coisa “macho” e está sendo contestada pela era da colaboração.

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Daria Dorosh – Owl Princess. 2012, Portable textile sculpture on custom shelf, 11″ x 11″ x 5.5”.Source: A.I.R. Website

Você teve sua primeira exposição individual na A.I.R. em 1976. Desde lá foram 17 mostras individuais. Qual é o papel da A.I.R. na sua carreira?

Eu fiz 17 exposições individuais e 21 coletivas na A.I.R.. As 17 mostras individuais foram importantes, por isso vejo a A.I.R. como o meu espaço de pesquisa. Minhas exposições são como uma pesquisa para mim, sempre com um pensamento que leva ao próximo corpo de trabalho. A era digital veio para minha vida no início dos anos 90 com o Mac. Quando eu vi pela primeira vez o Photoshop, eu não podia mais pintar. Eu parei de pintar. Eu ainda tenho minhas pinturas, eu amo minhas pinturas antigas, mas eu não sou capaz de voltar a pintar novamente. E eu não sei a razão exatamente. Eu ainda estou esperando a resposta. Eu me sustentava através do ensino e eu estava feliz com isso porque era uma vida boa e um trabalho muito interessante. Mas, ao mesmo tempo em que eu estava ensinando, a experiência de estar em um espaço com outras mulheres artistas durante todos esses anos me deu a coragem e confiança para ir atrás de mais coisas na minha vida. Uma dessas coisas foi realizar um PhD no encerramento da minha carreira docente.

Como foi essa experiência de ser uma das co-fundadoras da A.I.R. e fazer uma das exposições de abertura do novo espaço da organização?

Foi um pouco difícil, porque não sabíamos se iríamos abrir à tempo. E eu peguei uma exposição difícil para fazer neste momento.

Por que é difícil?

A exposição tem muitas obras pequenas e é centrada no corpo. Venho trabalhando em tempo integral desde janeiro para conseguir terminá-la. Tenho trabalhado com tecidos como um meio há cerca de 10 anos – parece que não consigo sair do mundo têxtil agora. Penso que o corpo é um espaço muito interessante para trabalhar, não só porque é o espaço tradicional de uma mulher – é o único espaço dado às mulheres, historicamente – mas porque o celular tem redefinido o corpo para homens e mulheres. Essa é uma tendência muito importante – todas as conversas agora ocorrem em nosso corpo, a nível mundial. Então eu comecei a pensar: e se a arte tiver um pouco de espaço no corpo, em algum lugar entre moda e a tecnologia? Qual é o resultado? Então,  jogando com essas ideias, a exposição se chamou The Art Of Sleep (A Arte de Dormir). É sobre este último lugar de privacidade que temos. Quando dormimos, estamos em nossa própria jornada interior, na qual ninguém está nos vigiando. E nós não sabemos exatamente para onde vamos. Sabemos que algo acontece, porque quando nos levantamos, nós somos diferentes. Assim, a exposição é sobre o que aconteceria se nós nos levássemos mais a sério antes de ir dormir. Quando as mulheres se casavam, tradicionalmente eles se vestiam para celebrar esta grande ocasião. E se toda noite fosse uma grande ocasião que nós estamos perdendo?

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Daria Dorosh ‘The Art of Sleep’, 2015 – Fonte: A.I.R. Facebook

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