Entrevista com Jenn Dierdorf: “Para mim, feminismo não é sempre sobre levantar uma bandeira, sobre ativismo. Eu tento demonstrar minhas crenças feministas através da maneira como eu vivo minha vida”

Coordenadora do Feminist Art Project, curadora da série anual de performances de mulheres artistas Savoir-Faire e Diretora de Desenvolvimento da galeria cooperativa de mulheres artistas A.I.R. Gallery, Jenn Dierdorf carrega uma extensa bagagem de produção artística voltada para questões feministas. Na entrevista abaixo, a gestora e artista fala sobre os desafios de coordenar uma organização sem fins lucrativos que advoga pela igualdade de direito das mulheres artistas dentro do sistema de artes de Nova York. “Há ainda uma falta de oportunidades para mulheres que querem expor. Ainda há uma enorme desproporção nas vendas, no mercado primário e secundário em relação à arte feita por mulheres. E isso é apenas parte do que está acontecendo no mundo da arte. Por isso, nosso trabalho não é apenas proporcionar uma oportunidade de exposição para as mulheres, mas é também empoderá-las e dar a elas ferramentas, recursos e confiança para fazer o que quiserem”, explica Dierdorf.

A entrevista com Jenn Dierdorf fez parte do projeto “Mulheres na Arte Contemporânea – A.I.R. Gallery”, desenvolvido em Nova York entre abril e julho de 2015 pela jornalista Isabel Waquil.  Contemplado no Edital Conexão Cultura Brasil Intercâmbios 01/2014, o projeto consistiu em uma pesquisa realizada através do método da entrevista sobre a A.I.R. Gallery, a primeira cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos.

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ISABEL WAQUIL: Você é co-diretora da A.I.R. e já participou da SoHo20, do Feminist Art Project e de outras experiências que estão focadas em mulheres nas artes visuais. Como você chegou neste ramo de atuação?

JENN DIERDORF: Eu fui uma feminista durante toda a minha vida, isso sempre foi algo que me interessou, politicamente e pessoalmente. Depois da faculdade, eu me mudei para Nova York e depois de um mês procurando emprego, a oportunidade da SoHo20 apareceu. Essa acabou por ser realmente uma boa entrada na comunidade de arte de Nova York.

E como foi que você entrou na A.I.R.?

Em parte, a partir da reputação que eu tinha desenvolvido na SoHo20. Durante os 5 anos em que eu estive lá, eu pude iniciar uma nova programação, ampliar o público do espaço e assegurar financiamentos da cidade e do estado para a galeria, bem como ajudar a executar vários eventos de angariação de fundos para a organização. Na A.I.R., elas tinham uma equipe forte, mas não havia uma pessoa que fizesse essa parte de desenvolvimento. A organização estava pronta para aumentar seu orçamento operacional, elas têm muita força histórica do feminismo no mundo da arte.

Quais são as semelhanças e diferenças entre a A.I.R. e SoHo20?

Elas são idênticas, inclusive no orçamento operacional. Há um pouco de um estigma em torno dos modelos de espaço de artistas, cooperativas – eles são frequentemente mal interpretados. As duas organizações são lideradas por pessoas trabalhadoras que procuram comunidades, suporte e visibilidade para seus trabalhos e práticas criativas. Elas voluntariam incontáveis ​​horas de trabalho na galeria e trabalham em conjunto para uma missão maior de apoiar as mulheres nas artes. Cada organização tem um processo de participação rigoroso e a qualidade do trabalho exposto nelas é alta. Tal como acontece com muitas organizações sem fins lucrativos, ambos os espaços lutam com financiamento, vendas e publicidade. Ao invés de examinar estas duas instituições uma em relação à outra, penso que é mais importante olhar para como eles se comparam a espaços comerciais ou até mesmo a outros modelos coletivos. Porque eles contam com mensalidades das integrantes, e por isso, se protegeram, por exemplo, da recessão de 2008 e assim sobreviveram à essa fase difícil, que foi o ponto final de muitos espaços comerciais.

A galeria é financiada principalmente pelas mensalidades?

Costumava ser, mas agora elas não cobrem todo o custo de funcionamento. Além de mensalidades, recebemos doações individuais, subvenções, contribuições de fundações, acolhemos exposições e eventos de angariação de fundos. Estamos planejando um evento beneficente anual, começando na primavera de 2016.

Quais são as partes mais difíceis de gerenciar uma galeria cooperativa?

Provavelmente a gama de vozes diferentes com a qual eu tenho que  lidar delicadamente ao mesmo tempo. Tento navegar, ouvir todo mundo e ainda fazer escolhas que servem à galeria, à equipe e às integrantes como um todo. É um tipo interessante de papel de liderança: eu trabalho para mais de 70 pessoas, mas, ao mesmo tempo, eu tenho que levar as coisas em uma direção que é melhor para os negócios da galeria e da nossa missão. E nem todas as integrantes estão na A.I.R. pela mesma razão. Algumas artistas querem encontrar uma comunidade, algumas querem ter uma exposição individual, algumas querem ser parte da história e do legado da galeria. Há também uma ampla gama de habilidades, disponibilidades, etc, então a equipe é uma parte muito importante para a coesão e consistência da galeria.

O que você acha que a A.I.R. ainda tem que alcançar ou trabalhar melhor? Qual é o desafio da organização, hoje em dia?

Nós temos que trabalhar para a galeria ser diversa e inclusiva. Acho que a nossa maior fraqueza é que ainda servimos um público restrito a uma certa classe racial e econômica. Temos de ser capazes de servir mais mulheres. Manter a galeria também é uma tarefa constante. Devemos permanecer relevantes e dentro do que é importante e necessário para a nossa sociedade. Isso significa que é preciso estar constantemente reavaliando e ouvindo nosso público para saber se nós somos eficazes.

Por que você acha que hoje, mais de 40 anos após a criação da SoHo20 e da A.I.R., ainda é importante ter instituições voltadas para mulheres artistas?

Bem, há ainda uma falta de oportunidades para mulheres que querem expor. Ainda há uma enorme desproporção nas vendas, no mercado primário e secundário em relação à arte feita por mulheres. E isso é apenas parte do que está acontecendo no mundo da arte. Por isso, nosso trabalho não é apenas proporcionar uma oportunidade de exposição para as mulheres, mas é também empoderá-las e dar a elas ferramentas, recursos e confiança para fazer o que quiserem. Isso é também o que faz valer a pena. Esta é uma posição política. Capacitar as mulheres para que façam suas próprias escolhas sobre suas carreiras e para tirar proveito dos recursos – saber onde encontrar os recursos, em primeiro lugar. Tudo isso está sendo feito através do veículo da arte.

Quais são as questões atuais para as mulheres?

Há certamente muitas questões. Igualdade de remuneração, direitos à cuidados de saúde, combate à violência… Mesmo o preconceito geral que temos como sociedade é muito perigoso. As mulheres são ensinadas a vida toda que seu único poder está em seu corpo. E pode ser difícil navegar contra estas ideias. Há alguns anos, eu participei de um evento chamado  “The Feminist Tea Party”, um projeto realizado por Suzanne Stroebe e Caitlin Reuter em que houve uma conversa com um tema de minha escolha. Eu queria discutir como as pessoas negociam aspectos da cultura mainstream, pois são coisas que gostamos, mas que também podem conter uma mensagem depreciativa – neste caso, misoginia. Esta ofensividade flagrante pode ser encontrada em filmes, música, arte, etc., mas a nossa conversa foi especificamente sobre hip hop e a mensagem que certos artistas promovem em sua música. Eu sinto que é importante chamar atenção para esses acontecimentos onipresentes porque eles estão tão incorporados em nossas vidas e facilmente se tornam aceitáveis.

Sua experiência na A.I.R. e na Soho20 afetaram o seu trabalho artístico?

Eu acho que sim, até certo ponto, sim. Minha pintura não é política, mas, muitas vezes, em função do feminismo ser uma parte tão grande da minha vida, do meu trabalho e ser algo que me interessa tanto, ele acaba chegando ao meu trabalho artístico de alguma forma. Ao mesmo tempo, para mim, feminismo não é sempre sobre levantar uma bandeira, sobre ativismo. Eu tento demonstrar minhas crenças feministas através da maneira como eu vivo minha vida; tento encontrar a melhor maneira que eu posso para confrontar o sexismo no meu entorno. Ser parte dessas organizações também enriquece muito minha experiência como artista. Eu tenho uma vasta rede de artistas com a qual eu posso contar. É incrivelmente valioso para mim.

Em que consiste o The Feminist Art Project?

O The Feminist Art Project (TFAP) é baseado na Universidade de Rutgers, sob a direção de Connie Tell. É uma entidade sem fins lucrativos que atua como um recurso para as mulheres nas artes a nível local e nacional. Com bases em todo o país, o grupo do TFAP organiza eventos para várias comunidades e se reúne anualmente nas conferências da College Art Association (CAA). Também nas reuniões da CAA, o TFAP patrocina um dia cheio de painéis de discussões sobre um tema feminista, e é gratuito e aberto ao público – ao contrário de muitos painéis CAA. Eu ajudei a organizar os painéis em 2015, com os co-coordenadores Damali Abrams e Kathleen Wentrack sobre o tema Colaboração na Arte. Foi um evento extraordinário, com vários participantes, incluindo Dread Scott, Kalliopi Minoudaki, Katherine Behar, Susan Bee, Joyce Kozloff, AK Burns, membros do coletivo HOWDOYOUSAYYAMINAFRICAN, e muitos outros. Vídeo dos painéis pode ser visto na internet. O TFAP é uma rede útil de e para mulheres que trabalham no cenário artístico.

Esta característica de “rede” parece ser muito comum em organizações de mulheres, no sentido de construir este senso de comunidade.

Sim, é quase como um Craigslist ou Facebook. Existem diferentes versões, mas essencialmente essas organizações são todas sobre comunicação e sobre ajudar uns aos outros. Na A.I.R. temos reuniões mensais para discutir negócios, mas estes encontros também são importantes para a dinâmica de grupo. Há muitas práticas e personalidades diferentes na galeria e é importante manter o respeito e compaixão entre o grupo.

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