Entrevista com Laura Petrovich-Cheney: “Um dos meus objetivos é ter meu trabalho associado a uma unidade masculina forte, porque as mulheres podem ser tão duras quanto os homens. “

A fim de desafiar os parâmetros construídos em torno do tipo de trabalho artístico desenvolvido por homens e mulheres, a escultora Laura Petrovich-Cheney se perguntou, ao idealizar sua tese de pós-graduação, quais eram as ferramentas mais assustadoras com as quais poderia lidar. “Então eu pensei: fogo e motosserra! Que sejam essas duas!”. A partir dessa provocação, a artista realiza projetos que a estimulam em termos físicos e conceituais. “Um dos meus objetivos é ter meu trabalho associado a uma unidade masculina forte, porque as mulheres podem ser tão duras quanto os homens. Eu quero desafiar a ideia do que é a “arte das mulheres” e o que as mulheres podem fazer fisicamente,  mentalmente, emocionalmente. Eu quero atingir os limites para que não haja mais estereótipos de limitações para as mulheres”. Além das questões sobre sua produção, Cheney fala sobre seu envolvimento com a A.I.R. Gallery e Women’s Caucus for Art, organizações que trabalham pelo direito e visibilidade de mulheres artistas.

A entrevista com Laura Petrovich-Cheney fez parte do projeto “Mulheres na Arte Contemporânea – A.I.R. Gallery”, desenvolvido em Nova York entre abril e julho de 2015 pela jornalista Isabel Waquil.  Contemplado no Edital Conexão Cultura Brasil Intercâmbios 01/2014, o projeto consistiu em uma pesquisa realizada através do método da entrevista sobre a A.I.R. Gallery, a primeira cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos.

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ISABEL WAQUIL – Como você entrou para a A.I.R.?

LAURA PETROVICH-CHENEY: Eu fui artista Fellowship 2013-14. No entanto, em 2010, eu fui a uma reunião organizada pelo College Art Association que foi sobre mulheres nas artes. Houve uma pessoa no painel de discussão que ficou falando sobre a A.I.R. e como ela havia começado sua carreira lá. Foi há tanto tempo que infelizmente não lembro qual artista era. Mas eu fiquei muito impressionada com essa pessoa que havia construído uma comunidade em torno da A.I.R. e com o fato de ela ter conseguido apoio através dessa comunidade. Pouco tempo depois, eu também fiquei sabendo sobre a A.I.R através da minha pesquisa de pós-graduação sobre a Ana Mendieta. Por isso, parecia fazer sentido investigar a A.I.R..  Tentei o programa de Fellowship em 2011 mas fui rejeitada. Tentei depois e então entrei.

Em que consiste o programa de Fellowship?

No Programa nós temos reuniões profissionais mensais, conversamos sobre currículos, oportunidades, bolsas, como se inscrever em bolsas, como olhar para elas, recursos e sobre a preparação necessária para uma exposição individual. Uma das maiores questões levantadas em nossas reuniões foi: “qual é o seu objetivo fora desta exposição?” Eu nunca tinha feito uma exposição individual  no contexto do que eu espero conseguir com essa exposição. Foi ótimo ter meu trabalho exposto na A.I.R., mas foi ainda melhor pensar sobre o que eu queria das exposições. Eram realmente boas perguntas. Esta ideia me deu foco e clareza para estar onde eu precisava estar.

Como você entende o fato de estar em uma iniciativa só para mulheres? Há críticas sobre este tipo de organização que dizem que, de uma forma, elas também são excludentes.

Eu gosto da comunidade exclusiva de mulheres. No entanto, esta é uma boa pergunta, porque agora existem muitas questões de gênero que cercam identidade. Por exemplo, e seu eu fosse um homem que me identificasse como uma mulher? Eu acho que é uma questão que a A.I.R. também precisa olhar. Eu gosto da ideia de exclusividade de mulheres. Ela cria uma comunidade que não é fácil de encontrar. Mas, daqui para frente, eu, pessoalmente, adoraria que houvesse inscrições abertas também para  homens que se identificam como feministas. Eu não sei se eu quero um homem como membro da A.I.R., mas acho que um convite aberto pode ser interessante para que outro gênero traga uma voz do feminismo. Eu acho que as pessoas estão mais dispostas a falar sobre isso agora. É um momento muito interessante.

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Laura Petrovich-Cheney – Washed up, 2013. Salvaged Wood, 43’’ x 43’’ x 1’’. Fonte: Laura Petrovich-Cheney website

Você ainda faz parte da Women’s Caucus for Art (WCA)? No que consiste esta organização?

Sim, eu ainda sou integrante ativa da WCA. Mas o processo de inscrição é diferente do da A.I.R. Qualquer mulher pode participar da WCA, enquanto que na A.I.R. você tem que apresentar um portfólio e ser aceita como membro com a aprovação do grupo. A WCA tem uma variedade de artistas membros – profissionais, artistas, historiadoras de arte, estudantes, educadoras e profissionais de museus. Esse foco da WCA é muito interessante por causa do grande número de integrantes. A missão é criar uma comunidade através da arte, educação e ativismo social.

Quais são as semelhanças diferenças entre a  WCA e a A.I.R.?

Ambas as organizações advogam por mulheres artistas e estou profundamente feliz de participar de ambas. A A.I.R. é um espaço de exposição permanente que promove uma troca aberta de ideias e lida com os riscos enfrentados por artistas mulheres, a fim de prestar apoio e visibilidade. Nossas integrantes estão em Nova York e em todo o país. A A.I.R. está liderando o caminho na defesa de mulheres artistas, aumentando a visibilidade para elas, enquanto a WCA está empenhada em reconhecer a contribuição das mulheres nas artes, fornecendo a mulheres oportunidades de liderança e desenvolvimento profissional e expandindo as oportunidades de networking e exposição.

Você também trabalha como professora de artes. Você acha que há negligência na história da arte com artistas mulheres?

Por centenas de anos, as mulheres tinham papéis estritamente atribuídos pela sociedade – e às vezes ainda têm. Mas penso que as mulheres corajosas que quebraram as funções atribuídas a elas e tornaram-se as pessoas que queriam ser e não o que disseram para elas devem ser mais reconhecidas. Isso é realmente importante. Os vencedores escrevem a história, e se os vencedores são homens brancos, eles estão escrevendo sempre sobre si.

Em uma entrevista passada você também disse que Eva Hesse foi uma de suas maiores influências. Ela mencionou muitas vezes as dificuldades de ser levada a sério como uma mulher escultora em um contexto no qual a maioria dos escultores eram homens. Você, como escultora, sente que este cenário mudou, ou os meios tradicionais (pintura, escultura, etc) ainda são dominadas por homens artistas?

Sim, Eu acho que o mundo da arte é dominada por artistas homens. Sou escultora e eu sempre quis usar as “ferramentas tradicionais dos homens” e ser desafiada por essas ferramentas. Claro, eu fui ao extremo: em minha tese de pós-graduação, eu trabalhei com uma motosserra para completar o meu trabalho. Eu não posso dizer que estava extremamente confortável ​​com uma motosserra, mas eu sei como usar uma. Quando eu comecei como escultora, eu me perguntei: qual é a ferramenta mais assustadora? Então eu pensei: fogo e motosserra! (Risos). Que sejam essas duas! Eu queria desafiar a mim mesma para que eu pudesse chegar a esse nível.

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Laura Petrovich-Cheney – Just Passing Though, 2011. Goldie Paley Gallery, Moore College of Art & Design, Philadelphia, PA. Tree trunks of maple and oak wood. Fonte: Laura Petrovich-Cheney website

O seu trabalho requer muito esforço físico, algo que pode ser associado a um trabalho masculino.

Sim, e eu adoro essa associação. Um dos meus objetivos é ter meu trabalho associado a uma unidade masculina forte, porque as mulheres podem ser tão duras quanto os homens. Eu quero desafiar a ideia do que é a “arte das mulheres” e o que as mulheres podem fazer fisicamente,  mentalmente, emocionalmente. Eu quero atingir os limites para que não haja mais estereótipos de limitações para as mulheres.

Você acha que o mundo da arte ainda é machista?

Sim, e eu vejo isso o tempo todo. Por exemplo, eu estava expondo com outro artista, um homem, e ele foi convidado para fazer um painel externo sobre a exposição. Mas eu não. Fui completamente ignorada, era como se eu não existisse, como se eu não estivesse na exposição. Pode ter sido por diversas razões, mas foi … curioso, porque eu não fui nem convidada. Meu marido também percebeu. Foi bastante perturbador. Então, sim, absolutamente, o mundo da arte ainda é machista.

um documento editado por Nancy Spero e Joyce Kozloff com declarações de mulheres que descrevem práticas sexistas no mundo da arte. Foi em 1972. E eu vejo que algumas coisas que aconteceram na década de 70 ainda acontecem hoje, 45 anos depois.

É incrível. E na medida em que eu envelheço, o sexismo parece piorar. É muito interessante negociar e navegar no mundo da arte na medida em que a gente envelhece.

E o mundo da arte é visto como um espaço mais liberal onde este tipo de coisa não acontece, mas não é um espaço separado do resto das práticas sociais, nas quais ainda há estes comportamentos fortemente sexistas.

O machismo um comportamento aprendido e, a menos que a gente comece a identificar os comportamentos que causam a exclusão das mulheres, não podemos pará-lo. Eu acho que a maioria das pessoas nem sempre está consciente de como ela se comporta. Às vezes, estes comportamentos são muito inconscientes – às vezes não. É por isso que as conversas sobre feminismo, sexismo e igualdade para as mulheres têm que continuar, para que as pessoas possam se perguntar “como eu trato os outros?”.

Qual você acha que é a questão para as mulheres no mundo da arte hoje?

Precisamos de igualdade de remuneração, em primeiro lugar. Como o presidente Obama disse, mulheres ainda ganham menos que os homens. No mundo da arte, essa diferença se traduz no fato de que o trabalho artístico de mulheres, na maioria das vezes, não é tão valorizado comercialmente quanto o dos homens. Há diferença nesta precificação e, em uma sociedade capitalista, o preço pode ser visto como um fator de valorização. Em segundo lugar, as mulheres precisam ser mais representadas em museus e galerias. As mulheres precisam ser colocadas em posições de poder em instituições de arte – por exemplo, nos principais museus – para ajudar a escrever a história e para incluir outras mulheres na conversa sobre arte. E, por último, as mulheres precisam apoiar umas às outras.

Você acha que homens e mulheres são concorrentes equivalentes?

Eu não sei. Eu realmente não sei. Por exemplo, eu estava em uma exposição em que o curador escolheu apenas eu e artistas homens, brancos. Eu me senti como uma presença simbólica. Mas então eu olhei para quem era o curador e fiquei pensando se ele havia escolhido esses homens porque viu um reflexo de si neles. Se eu só tiver amigos que pensam como eu e que têm os mesmos valores que eu, será que isso não se torna entediante? Por isso, eu pediria aos curadores e às pessoas encarregadas de exposições para serem mais conscientes de suas escolhas artísticas, a fim de que opiniões e ideias que diferem de suas próprias estejam representadas. Eu pediria que essas pessoas fossem mais auto-reflexivas sobre suas escolhas e que se perguntassem “como pode o meu ponto de vista ser mais inclusivo?” É um desafio humano para os homens e para as mulheres. É algo que eu pediria a todos.

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Laura Petrovich-Cheney – Confinement, 2009. 5’’ x 5’’, 2.5’’. Wax, Wool yarn, oil paint, canvas. Fonte: Laura Petrovich-Cheney website

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