Entrevista com Maxine Henryson: “O desafio hoje da A.I.R. é encontrar o equilíbrio certo.”

Embora tenha integrado a equipe da A.I.R. Gallery há poucos anos, Maxine Henryson é hoje uma membro com ampla atuação dentro desta que é a primeira galeria cooperativa de mulheres artistas do Estados Unidos. A artista coordena o Comitê do Fellowship Program, projeto mais importante da A.I.R. que fornece orientação profissional e exposições para mulheres em início de carreira ou sub-representadas. Henryson também participa do Comitê Offsite, que articula atividades da organização fora do espaço físico da galeria. Em sua produção artística, ela desenvolve projetos que dialogam com diferentes culturas através de um registro fotográfico sutil e poético. Seu trabalho mais recente, Ujjayi Journey, consiste em um livro de fotografias realizadas durante anos de viagens à Índia, país onde a fotógrafa desenvolveu um grande interesse pela adoração a deusas e figuras femininas.

A entrevista com Maxine Henryson fez parte do projeto “Mulheres na Arte Contemporânea – A.I.R. Gallery”, desenvolvido em Nova York entre abril e julho de 2015 pela jornalista Isabel Waquil.  Contemplado no Edital Conexão Cultura Brasil Intercâmbios 01/2014, o projeto consistiu em uma pesquisa realizada através do método da entrevista sobre a A.I.R. Gallery, a primeira cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos.

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ISABEL WAQUIL – Como você entrou na A.I.R.?

MAXINE HENRYSON – Bem, eu sempre soube sobre a A.I.R.. Eu morava em Chicago antes e, naquela época, havia duas galerias de mulheres lá, ARC e Artemisia. Eu tinha uma exposição na a ARC e tinha uma amiga que era muito ativa naquela galeria e que me falava da A.I.R.. Então, quando estava lecionando na Bennington College, uma das minhas colegas se tornou membro da A.I.R. e disse que eu deveria realmente pensar nisso também. Isto é só para dizer que eu estava ciente da galeria, mas apenas recentemente eu considerei participar.

E por que você decidiu participar?

Acho que é porque um dos meus interesses sempre foi nas relações entre culturas e em como nós somos semelhantes apesar de diferentes. Essa ideia de comunidade sempre foi parte do meu trabalho. Acho que eu também queria aliviar o constante estresse da procura por exposições e queria algo mais consistente. Nesse ponto, eu sou a única fotógrafa na galeria. Há algumas artistas que utilizam a fotografia como parte do seu trabalho, mas elas não se identificam como fotógrafas.

E por que você acha que uma iniciativa como a A.I.R. ainda é importante hoje?

Porque eu acho que ela permite que você faça um trabalho que não tem a pressão do mercado. Se você estiver trabalhando com um curador e um galerista, eles têm expectativas, então eu acho que ser livre disso é algo realmente significativo. Quer dizer, eu realmente gosto de trabalhar com curadores, mas minha experiência em galerias tem sido diversa. É claro que uma coisa não exclui a outra.

Qual você acha que é o desafio de A.I.R. hoje?

Eu acho que quando você não está sob a pressão de um curador específico ou um galerista, o lado negativo é que às vezes as pessoas ficam preguiçosas, por assim dizer. Não se desafiam. Claro, pode ser algo que aconteça nos dois sentidos – as pressões e demandas de uma nova exposição podem levar você a novos territórios ou você produzir um trabalho muito rapidamente. O desafio hoje da A.I.R. é encontrar o equilíbrio certo. No momento, o desafio é atrair mais jovens artistas, porque coletivos de mulheres eram muito necessários na década de 70 e pode parecer, inicialmente, que os coletivos não são mais necessários agora. Se você olhar para o novo Whitney, há uma série de mulheres sendo representadas para que haja mais consciência, mas, por outro lado, só para lhe dar uma ideia – acho que é uma espécie de termômetro – o número de mulheres que se inscreveu para o nosso Fellowship Program dobrou de um ano para o outro. Há dois anos, tivemos cerca de 200 aplicações, e no ano passado tivemos 402. Isso dá uma ideia de que, ok, talvez haja mais mulheres artistas, mas as oportunidades não cresceram da mesma forma. Porque, para serem consideradas para o Fellowship Program, as proponentes não podem ter tido uma exposição individual antes.

Sobre o seu trabalho, quando o feminino começou a te interessar?  

Bem no início. Lembro  de estar na segunda disciplina de fotografia, chamada de Fotografia II, e  me inclui na imagem fazendo uma série que era uma espécie de série de sonhos, com a figura se movendo como alguém místico. Lembro então que o comentário do instrutor foi “Ok, bem, eu não sei de quem é esse trabalho, mas posso dizer com certeza que foi feito por uma mulher”. Eu passei por um período em que eu estava determinada a não deixar que as pessoas soubessem disso. Mas a figura feminina e o feminino estiveram sempre lá. Quando eu estava fotografando e fazendo uma série chamada Direitos Americanos, eu estava fotografando nas ruas. Fotografei o desfile do Nelson Mandela e, é claro, havia figuras masculinas nas fotos, mas a figura feminina sempre foi dominante no meu trabalho. No livro mais recente que eu fiz, Ujjayi Journey, eu estou realmente interessada nas deusas que são adoradas na Índia.

Como você desenvolveu esse projeto, Ujjayi Journey?

Ujjayi significa “respiração”, então eu faço uma espécie de jogo com essa palavra, como se Ujjayi fosse o nome de uma mulher, A Jornada de Ujjayi , mas, na verdade, a tradução correta seria  A Viagem da Respiração. Eu estive na Índia muitas vezes, e inicialmente era porque estava interessada, novamente, no feminino e nas deusas. Mas também comecei a fazer yoga, então algumas vezes eu ia por causa da yoga, e outras eu ia mais pela viagem.  Normalmente eu viajava com pessoas que tinham interesse em aspectos espirituais da Índia. Eu estive lá seis vezes. A primeira viagem foi na década de 90 com o meu filho. A última foi em 2008. O livro foi publicado em 2012 e é o meu projeto mais recente.

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MAXINE HENRYSON –  Kolam for the deity, Sri Meenakshi-Sundareshwarar Temple, Madurai. 2006, Photograph, Dimensions variable

E como foi a sua percepção sobre as mulheres na Índia?

Sabe, eu li muitas escritoras indianas, um monte de ficção, por isso é um pouco difícil saber se minha percepção vem da minha interação com as mulheres da Índia ou se ela vem do conhecimento que adquiro na minha leitura constante. Mas sobre as mulheres, eu acho que isso depende – mulheres indianas na Índia, ou mulheres indianas no Estados Unidos? Eu acho que elas são mulheres fantásticas e são realmente muito fortes. Na Índia há, obviamente, uma questão de classe, uma questão de educação. Mas acho que há o contemporâneo e as tradições antigas convivendo ao mesmo tempo e isso é realmente uma das coisas que torna aquele país tão interessante: você vê as coisas acontecendo ao mesmo tempo. E, cada vez mais, há shoppings e todo esse tipo de coisa. Acho que há esse processo de ocidentalização se difundindo na Índia agora. Mas ainda é um país fabuloso.

Em outro projeto seu,  “In Red Leaves & Golden Curtains” você disse: “Eu explorei a minha percepção do feminino no mundo, examinando as diferenças e semelhanças entre as culturas”. Quais são essas semelhanças e diferenças?

Bem, nesse livro eu viajei de Vermont, nos Estados Unidos, para a França, Alemanha, Bélgica, Itália, Polónia, Rússia, Índia e Camboja. Há vários cruzamentos – religião, família,  cultura e, obviamente, um diálogo de cor. Mas claro, as cores que você encontra na Rússia não são as cores que você encontra nos Estados Unidos, por exemplo. Há questões de funções na sociedade – das mães que quase sempre são aquelas que tomam conta das crianças e executam as tarefas da casa. Mas, por exemplo, tristeza, felicidade, celebração da união entre duas pessoas – estes são praticamente aspectos da vida emocional que estão em todos estes países. Nascimento, morte, casamentos. Por outro lado, o ritual da vida cotidiana é muito diferente de uma cultura para outra. Eu estive na Itália agora e lá eles tomam o tempo deles para realizar o almoço e para ter uma boa refeição. E aqui nos Estados Unidos é tudo tão rápido. Bem, eu sou uma viciada em cultura, sou totalmente fascinada por isso.

Você tem o seu trabalho relacionado com o de mulheres artistas?

Se você me perguntasse quem são minhas influências, bem, elas são de ambos os sexos, mas … agora eu estou super animada que Joan Jonas está representando o Pavilhão dos Estados Unidos na Bienal de Veneza. Ela é uma das minhas heroínas. Joan Mitchell, que tem belíssimas pinturas. Sua pintura sempre foi muito importante para mim. Helen Levitt. Se você for no Whitney você vai ver um filme que ela fez com as crianças, ela é uma fotógrafa americana. Nan Goldin … Luc Tuymans é um pintor que tem um trabalho no qual eu estou muito interessada. William Eggleston. Ele é um fotógrafo; a primeira exposição com fotografias a cores no MoMa foi dele. Se eu tivesse que escolher trabalhos para levar comigo para uma ilha deserta, talvez a proporção – artistas homens e mulheres – fosse igual. Eu tenho uma grande variedade de interesses e de formas de trabalhar.
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MAXINE HENRYSON –  Dusk, Ganges, Varanasi.  2008, Photograph, Dimensions variable

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