Entrevista com Melissa Murray: “Eu anseio para que um dia os coletivos de mulheres já não sejam necessários, isso significa que conseguimos igualdade”

Membro mais jovem da A.I.R. Gallery, a primeira cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos, Melissa Murray integrou o Fellowship Program da organização durante 2013-2014. Na conversa abaixo, a artista fala sobre seu trabalho artístico e sobre a participação de mulheres artistas na cena artística. “O tipo de mudança que eu gostaria de ver é quase invisível, é algo que cresce a partir da simples noção de que não há divisão entre os sexos”, reflete Murray.

A entrevista com Melissa Murray fez parte do projeto “Mulheres na Arte Contemporânea – A.I.R. Gallery”, desenvolvido em Nova York entre abril e julho de 2015 pela jornalista Isabel Waquil.  Contemplado no Edital Conexão Cultura Brasil Intercâmbios 01/2014, o projeto consistiu em uma pesquisa realizada através do método da entrevista sobre a A.I.R. Gallery, a primeira cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos.

Saiba mais sobre a A.I.R. aqui

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*entrevista realizada por email

ISABEL WAQUIL – Como é que você ficou sabendo sobre a A.I.R. e como é o seu envolvimento com a galeria de hoje?

MELISSA MURRAY – Meu primeiro encontro com a A.I.R. foi durante meus estudos de graduação na Purchase College. Depois, continuei a ser inspirada pela história e pela missão da galeria de apoiar as mulheres nas artes visuais. Anos mais tarde, eu me inscrevi para ser uma membro das Artistas de Nova York e fui aceita. Atualmente sou a integrante mais jovem do grupo. Faço parte do Comitê Executivo e estou organizando a nossa segunda residência em Governors Island, no próximo verão.

Por que é importante participar, hoje, em 2015, de uma iniciativa como A.I.R., que advoga em favor das  mulheres no mundo da arte?

Ainda há necessidade da A.I.R. existir. As atuais estatísticas de “sucesso” de homens e mulheres são vergonhosas, e até as coisas mudarem sempre haverá uma necessidade para lugares como A.I.R., para que as mulheres artistas tenham sua voz. De certa forma, eu anseio para que um dia os coletivos de mulheres já não sejam necessários, isso significa que conseguimos igualdade. Eu não tenho a intenção de ter meu trabalho destacado como um trabalho de mulher, minha expectativa é que ele exista por seu próprio mérito, ao lado de trabalhos de homens e mulheres.

Como você vê a participação das mulheres nesse cenário?

Através de diferentes ramos do feminismo, mulheres obtiveram sua própria voz em temas importantes para elas. Alguns grupos são conflitantes, alguns são simbióticos, mas, no fundo, a maioria dos coletivos existe porque as mulheres ainda não estão em situação de igualdade em nossa sociedade. As mulheres não podem se acomodar, e precisam permanecer firmes em suas convicções, não importa a sua luta. Estou confiante que ainda vou ver mudanças; e o tipo de mudança que eu gostaria de ver é quase invisível, algo que cresce a partir da simples noção de que não há divisão entre os sexos.

Você acha que homens e mulheres podem competir igualmente hoje – não em termos de produção artística, mas em termos de desafios sociais?

É absolutamente possível. As escalas estão certamente em favor dos artistas homens, qualquer um pode ver ao pegar qualquer número comparativo em publicações de arte. No entanto, quando eu penso em termos de desafios sociais, eu sinto que tanto homens como mulheres têm um monte de responsabilidades na estrutura social. Não importa a configuração: pessoas solteiras que trabalham, famílias com dois parceiros que trabalham, os pais que ficam em casa para cuidar dos filhos…  Todo mundo tem um monte de responsabilidades e com a exceção dos poucos que podem se sustentar lucrativamente apenas com sua arte, a maioria de nós têm outras responsabilidades além do trabalho artístico. Há uma igualdade aí. O problema com qualquer uma dessas configurações é que os trabalhos de homens e de mulheres não são remunerados igualmente.

Desde 1972, quando A.I.R. foi criada, muitas coisas foram realizadas por mulheres, mas sabemos que ainda há muito a fazer. Pelo quê você acha que as mulheres devem lutar  no mundo da arte hoje?

Igualdade. Eu não sou do tipo que acha que o trabalho das mulheres é mais importante do que o trabalho dos homens, eu gostaria de não ver divisão entre os sexos e que o foco fosse sobre o valor da arte, e não sobre quem a criou. Há uma longa luta para se chegar a este ponto e talvez, neste percurso, as mulheres precisem que seu trabalho prevaleça sobre o trabalho dos homens no sentido de serem ouvidas, mas eu espero que o nosso objetivo final seja “simbiótico”.

A casa e os elementos domésticos parecem desempenhar um papel importante em seu trabalho. Como você vê a presença desses componentes em seu processo?

O doméstico é uma parte do meu trabalho diário e eu me orgulho da minha auto-suficiência. Meu trabalho fora da minha casa é a minha carreira, e, em certas pinturas, esses dois mundos se sobrepõem, ligando a minha vida doméstica com uma existência mais surreal.

Você acha que há uma diferença entre sensibilidades femininas e masculinas?

Nós somos seres diferentes, podemos ser. No entanto, há um fator humano que nos liga. Talvez seja nisso em que devêssemos nos concentrar para criar uma igualdade em nossas práticas criativas. Pode haver uma diferença no trabalho criado por um homem comparado com o criado por uma mulher, mas eu não acho que é necessário haver essa diferença. Vai depender realmente do que inspira o artista. A política pode desempenhar um papel importante, nesse sentido.

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Melissa Murray – Winter. 2013  Source: http://melissamurraynyc.com/

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