Entrevista com Susan Bee: “Galerias de mulheres são aceitas, claro – e a A.I.R. é a mais importante delas, historicamente – mas eu não acho que nós recebemos o respeito que deveríamos”

Lidando há anos com os obstáculos do circuito artístico novaiorquino, a artista americana Susan Bee comenta, na entrevista abaixo, temas relacionados à participação das mulheres na cena de arte de Nova York e aponta para a desvalorização que ainda existe em relação à arte feminista dentro deste sistema. Filha da também artista Miriam Laufer, Bee viu desde cedo a mãe enfrentar os desafios de ser uma mulher artista. O engajamento político cresceu com o ingresso na Barnard, faculdade de mulheres ligada à Columbia University, durante as manifestações contra a guerra do Vietnã e explosão do movimento feminista. A artista reconhece que, mesmo sendo membro da A.I.R., a primeira galeria de mulheres artistas dos Estados Unidos, as cooperativas ainda são menosprezadas dentro de um cenário onde prevalecem atitudes sexistas em relação às mulheres e à arte feminista.

A entrevista com Susan Bee fez parte do projeto “Mulheres na Arte Contemporânea – A.I.R. Gallery”, desenvolvido em Nova York entre abril e julho de 2015 pela jornalista Isabel Waquil.  Contemplado no Edital Conexão Cultura Brasil Intercâmbios 01/2014, o projeto consistiu em uma pesquisa realizada através do método da entrevista sobre a A.I.R. Gallery, a primeira cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos.

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ISABEL WAQUIL – Na base de dados feminista do Brooklyn Museum (“Feminist Art Base”), você disse que decidiu seguir um caminho feminista dentro da arte. Como isso aconteceu?

SUSAN BEE – Bem, Eu sou uma integrante da A.I.R. Gallery, que é uma galeria de mulheres, desde 1996, mas antes disso eu fui para a Barnard, que é uma faculdade de mulheres. Eu estava muito envolvida com o movimento de arte feminista e com as gerações anteriores, como Nancy Spero – que foi muito importante para mim – Joan Snyder, Joyce Kozloff, e outras pessoas que eram modelos para mim. Além disso, minha mãe, Miriam Laufer, era artista. Eu também  fui editora da Women Art News por um tempo, então eu estava muito envolvida neste contexto desde os anos 1970. Eu estava no início de toda aquela segunda onda de consciência feminista, que estava recém começando.

Como era este contexto?

Era muito empolgante, porque era final dos anos 60, início dos anos 70, nós estávamos na Barnard College, na Columbia University, que estava cheia de ações políticas contra a Guerra do Vietnã. Também era época do início do movimento black power, da consciência gay, do feminismo … Foi tudo acontecendo ao mesmo tempo, foi muito dinâmico. Eu quase nunca ia para a aula (risos).

Quais conseqüências você diria que esta decisão de ser feminista gerou?

Eu não sei se houve uma decisão, foi mais como um modo de vida. Eu não sei, porque, ainda hoje, o movimento feminista, na arte, não recebe o respeito que deveria. Por exemplo, na exposição de abertura do novo Whitney Museum eles colocaram um monte de obras políticas –  arte sobre racismo, AIDS, Guerra do Vietnã, a Depressão, mas eles não têm nenhuma arte feminista propriamente dita. Eles têm muito mais mulheres nesta exposição do que eles já apresentaram antes, claro, mas eles não se referem especificamente à arte feminista. Eu não tinha notado, mas uma amiga minha foi na abertura da manhã para o tour com os críticos e ela disse: “Onde está o movimento de arte feminista?” Quero dizer, você tem a pop art, você tem a minimal art, você tem a arte conceitual, você tem todos os tipos de movimentos políticos, mas não o feminista. Porque, mesmo agora, eu acho que este é um movimento desacreditado, em certo nível. Eu sinto que ele nunca recebe o respeito que deveria.

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SUSAN BEE – Fighters. 1983, Oil on linen, 64″ x 48” (Fonte: A.I.R. Gallery)

Mas você acha que a participação das mulheres no mundo da arte mudou?

Houve alguns impactos, porque anos antes do movimento feminista, não havia mulheres representadas e  hoje esse percentual é o que, em torno de 30%? É muito, em comparação com os dados anteriores.  Por isso, há essa sensação de equidade. Eu fico muito contente, claro, mas eu não acho que é o suficiente. Quero ver 50 – 50. Ou 60 – 40. Mais mulheres. Por exemplo, eu acho que é difícil para a A.I.R. ser respeitada como ela deveria ser.

Por quê?

Nós estamos em cena há mais de 40 anos, mas isso não traz necessariamente status, vendas ou credibilidade. Galerias de mulheres são aceitas, claro – e a A.I.R. é a mais importante delas, historicamente – mas eu não acho que nós recebemos o respeito que deveríamos. Eu sei porque eu tenho exposto em outros espaços. Você começa receber um retorno diferente. Eu não estou tentando ser pessimista sobre este problema, eu só estou tentando ser realista.

Você acha que isso é uma questão do contexto fora da galeria?

Bem, galerias cooperativas não recebem o mesmo respeito que galerias comerciais. Mesmo em galerias comerciais, existe uma hierarquia. Eu tenho exposto com galerias comerciais menores, eu me saí bem, mas você não obtém o tipo de visibilidade que você obteria em grandes galerias comerciais. Honestamente, é uma questão de dinheiro. Na A.I.R. nós temos artistas realmente boas, mas mesmo elas, quando entram para o mainstream, raramente mencionam que estavam na A.I.R.. Ana Mendieta era integrante da A.I.R. e quando fizeram uma exposição dela no Whitney, eles tentaram enterrar seu passado feminista.

Por que você acha que eles tentaram enterrar o passado feminista de Ana Mendieta?

Penso que é porque ele não adiciona valor comercial. O feminismo não é uma vantagem no mundo da arte comercial. Mesmo Ana Mendieta – seu trabalho é representado por uma galeria muito boa, no entanto, eles não querem enfatizar seu passado feminista. Eles querem que o seu trabalho seja visto no contexto maior. Eu entendo. Eles não querem que ela esteja neste gueto do mundo da arte feminista, que é menos valioso. Os galeristas são muito conscientes disso. Não existe um mercado para a arte feminista.

Mas por que, então, você ainda está associada a uma organização feminista?

Eu gosto de estar em uma exposição apenas de mulheres, por exemplo, mas eu entendo que alguém queira ser parte de um contexto maior. Eu tive uma exposição em uma pequena galeria em Williamsburg e o galerista me disse que eles esgotam as vendas de obras de homens, mas eles nunca esgotam as vendas de trabalhos de mulheres. Para eles, é como se estivessem perdendo dinheiro com você. No meu caso, foi uma boa experiência. Eu também estava mostrando um trabalho fotográfico experimental que eu nunca havia mostrado antes, porque eu não tive uma exposição individual durante 40 anos. Entre os meus amigos, nós brincamos que, como normalmente você tem que ter 90 anos de idade para ter uma boa exposição individual, você tem que se manter em boas condições de saúde para poder chegar aos 90 e ter a exposição. Mas não é engraçado, porque as pessoas morrem antes de exibir seus trabalhos. Posso enumerar algumas mulheres de 90 anos de idade, com exposições hoje em Nova York. É muito frustrante. Levei 40 anos para mostrar esse trabalho que eu tinha feito na década de 70. Então, basicamente, eu acho que você tem que ser pró-ativa e você tem que tentar não morrer cedo demais (risos). É muito difícil.

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SUSAN BEE – Doomed to Win. 1983, Oil on linen, 50″ x 54” (Fonte: A.I.R. Gallery)

Então, esse ambiente machista ainda permanece?

Ah, sim. As pessoas estão mais conscientes disso. Como o racismo, que está muito latente nos Estados Unidos, no momento. Mas não é como se ele tivesse terminado, realmente. A discriminação não parou. Apenas ficou mais escondida ou se transformou. Como um vírus que assume diferentes formas. E uma das formas que o machismo assume é nas vendas. O trabalho das mulheres vende menos e vende por um valor menor, e isso influencia o galerista. É um círculo vicioso. É por isso que as mulheres não querem estar em uma exposição apenas de mulheres, porque são estigmatizadas. Eu não me importo, pessoalmente. Mas eu entendo a ideia de tentar se integrar em um mundo da arte maior.

E qual é o papel da A.I.R. na sua carreira?

Tem sido muito útil, porque eu precisava de um lugar para expor e as galerias comerciais não estavam interessadas. Tem sido um trampolim para mim. Para a comunidade de artistas mulheres é muito importante também. Eu conheci muitas pessoas através dela. Eu fiz um monte de conexões ao longo dos anos e tem sido um bom espaço para ter exposições. Muitas pessoas viram meu trabalho, especialmente quando a galeria estava no SoHo e no Chelsea.

E por que você acha que uma instituição como a A.I.R. ainda é importante?

Porque não há lugares suficientes para as artistas mulheres. Na A.I.R. nós temos várias artistas mais velhas que simplesmente não têm como ir para outras galerias neste momento. Então é ótimo para elas. E temos também o Fellowship Program, que é ótimo para as artistas mais jovens, é um grande trampolim para elas. Temos agora algumas integrantes mais jovens, que são maravilhosas. Na verdade, o grupo agora é realmente bom em termos de personalidades. Quando entrei pela primeira vez, era um inferno. As pessoas gritavam, berravam.

Por quê?

Eu não sei, as mulheres artistas costumavam ficar muito bravas. Eu estava acostumada com isso por causa do movimento feminista, mas eu não gostava. Eu não sou assim. Todo mês eu ia para as reuniões e eu não falava uma palavra. Mas a atmosfera mudou. Com as pessoas entrando e saindo, a personalidade do grupo muda. É muito interessante. Agora eu estou lá há cerca de 20 anos e posso dizer, com certeza, que estamos em um período muito bom, todo mundo é muito agradável, as pessoas agradecem umas às outras, ouvem, falam.

Seu trabalho artístico trata de papéis de gênero e relações de poder. Você vê o seu trabalho como um discurso político?

Sim, é uma questão para mim. Mas eu também lido com um monte de outras coisas. Eu estou interessada na relação entre as pessoas. Eu gosto de ter um sub-tema feminista, mas eu não gosto de ser muito explícita, então eu combino este tema com outras coisas. Eu acho que se você colocar a mensagem delicadamente, ela sai melhor. Por outro lado, eu faço isso com humor. Uma coisa que eu gostava no movimento feminista é quando elas eram engraçadas. Eu acho que as Guerrilla Girls fizeram isso muito bem, porque eles são bem-humoradas.

Elas são muito irônicas também.

Sim, elas são irônicas e sarcásticas. E elas estão, obviamente, zombando deste “sub-nível” do mundo da arte.

E o humor ajuda a espalhar a mensagem.

Sim, porque as pessoas se identificam com aquilo que é divertido. Duas delas são minhas amigas e são muito engraçadas!

Quais mulheres artistas com obras feministas você destacaria?

Bem, eu diria que Nancy Spero é a minha favorita. Eu gosto muito da Ana Mendieta e Miriam Schapiro. Mary Beth Edelson também é muito interessante … Joan Snyder, Joyce Kozloff são pessoas que eu realmente gosto e que eu conheço. Há também outras que se enquadram na categoria de mulheres artistas, mas não são necessariamente artistas políticas. Alice Neel, Eva Hesse, Elizabeth Murray, Joan Mitchell, Frida Kahlo e Louise Bourgeois, por exemplo, são realmente grandes artistas. Então, quando você olha para além do foco estreito, você tem uma perspectiva mais ampla. Há um monte de mulheres artistas abstratas que também são feministas, mas não se fala sobre elas.

Mas você acha que a luta das mulheres mudou? Qual é a questão para as mulheres hoje?

Bem, o principal é o mesmo de antes, que é a igualdade de remuneração. Nós ainda não recebemos salários iguais. É praticamente a mesma luta. As coisas têm melhorado, mas nada melhorou significativamente. No mundo da arte, ainda não recebemos “salários” iguais no sentido de que nós não vendemos tanto quanto os homens, e não vendemos pelos mesmos preços. Não há equidade. Agnes Gund, mportante colecionadora, presidente emérita do Museu de Arte Moderna de Nova York e uma das mulheres mais poderosas do mundo da arte, escreveu um artigo sobre como ela não conseguia entender por que as mulheres estavam ainda tão atrás nesta questão. E se ela não pode compreender essa questão, quem pode? (Risos). E pode parecer que ela tem o poder de mudar esta situação, mas ela não tem, na verdade. E não é que as mulheres não estão tentando. As pessoas tendem a dizer: “Ah, você não está se esforçando o bastante”. Eu realmente desconsidero esse comentário, porque não é que as mulheres não estão tentando. Não culpe a vítima.

A última coisa que eu queria lhe perguntar é sobre sua mãe, Miriam Laufer, porque eu li que ela foi uma grande influência para você, certo?

Sim, ela era uma pintora também. Os meus pais eram artistas, então eu cresci em uma família de artistas. Ela foi uma grande influência porque ela estava envolvida com o movimento feminista antes de mim. Ela era terrivelmente discriminada em relação ao seu trabalho. Por isso, levei muitos anos para conseguir uma exposição em um museu para ela. Os anos 50, 60 e 70, foram períodos muito difíceis para uma pintora mulher em Nova York. Poucas conseguiram, e as que tiveram sucesso tenderam a se envolver com homens poderosos. Elas se casaram com curadores, críticos ou importantes artistas do sexo masculino. Não que os trabalhos não fossem bons, mas talvez elas não teriam alcançado aquilo sem essas conexões. E minha mãe não tinha essas conexões. Então era difícil e eu vi sua luta. Ela não queria que eu fosse artista.  Ela queria que eu fizesse qualquer outra coisa, mas não arte.  Agora eu entendo totalmente o que ela queria dizer.

Você se arrepende?

Não, porque eu não poderia ter feito outra coisa. Foi assim que aconteceu. É claro que ela também deve ter notado isso (risos). Ela costumava me arrastar com ela para seu ateliê, então eu fui criada em um ateliê de pintura. Acho que ela pensou que eu ia para a Barnard e depois para a faculdade de Direito começar um trabalho de verdade. E eu nunca fiz isso. Mas foi ótimo ver o trabalho dela, era um tipo de trabalho feminista bem explícito, com um monte de auto-retratos nus. Então é isso. Destino (risos). Ela estava com uma galeria cooperativa também, a Phoenix. Ficava na Rua 10, em Nova York, então ela fazia parte desta cena da Rua 10 – que foi uma cena muito machista. Artistas expressionistas abstratos e artistas pop, uma cena muito “macho”, e foi muito difícil. Ela foi desencorajada. Ela continuou porque foi continuando. Várias mulheres apenas desistiram. Não era uma vida fácil.

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SUSAN BEE –  Lady Be Good. 2013, Oil, enamel, and sand on linen, 20″ x 24” (Fonte: A.I.R.)

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