Entrevista Susan Stainman: “Eu sempre me choco quando mulheres jovens e mulheres artistas pensam que não há mais tal coisa como o sexismo”

Fellowship Artist 2013-2014 e atual membro da A.I.R., primeira galeria cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos, a artista Susan Stainman fala sobre sua experiência na organização exclusiva de mulheres, além de comentar assuntos como sexismo no mundo da arte e questões de gênero em sua geração.

A entrevista com Susan Stainman fez parte do projeto “Mulheres na Arte Contemporânea – A.I.R. Gallery”, desenvolvido em Nova York entre abril e julho de 2015 pela jornalista Isabel Waquil.  Contemplado no Edital Conexão Cultura Brasil Intercâmbios 01/2014, o projeto consistiu em uma pesquisa realizada através do método da entrevista sobre a A.I.R. Gallery, a primeira cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos.

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ISABEL WAQUIL – Como foi a experiência como artista Fellowship na galeria?

SUSAN STAINMAN – Foi uma experiência ótima eu adorei! Eu nunca tinha tido uma exposição individual antes, portanto, a oportunidade de tê-la foi incrível. Em seguida, a comunidade das artistas Fellowship ficou muito próxima, continuamos a ser uma comunidade e 3 se tornaram membros da A.I.R., metade do grupo. Essa comunidade foi realmente ótima. Tínhamos também uma mentora, a minha era a Jane Swavely e eu sinto que ela ainda é a quem sou mais próxima.

E por que você decidiu se tornar uma membro depois de sua experiência no Fellowship Program?

Jane tinha sugerido que eu me tornasse membro depois que eu terminei o Fellowship Program. Eu pensei “Vou esperar … vou esperar …”. E então eu pensei “Por que eu estou esperando?”. Acho que eu pensei que seria algo que eventualmente eu fosse fazer, mas eu também me perguntei se eu estaria em Nova York nos próximos 10 anos. Talvez não, então eu poderia muito bem me juntar ao grupo agora. Também me atraia a ideia de conhecer outras membros, de fazer conexões, construir uma comunidade de artistas. É o tipo da coisa que eu não tinha quando voltei para Nova York há 3 anos. Eu tinha amigos, mas não tinha uma comunidade de artistas com quem eu poderia falar sobre meu trabalho, ver exposições. Na A.I.R. há realmente esse senso de comunidade. E também ter uma exposição a cada dois anos é bom. Onde mais eu vou ter a garantia de que vou ter uma exposição individual em 2 ou 3 anos? Pretendo ficar na A.I.R., desde que eu tenha fontes financeiras. Eu acho que essa era também uma das minhas hesitações em entrar. “Eu posso pagar?”. Essa é uma discussão que estamos tendo especialmente agora, mudando-nos para o novo espaço. Como você se torna uma organização mais inclusiva? Em termos de idade, raça, etnia?

Em Nova York há uma série de organizações de arte, cooperativas. Por que você acha que é importante participar de uma organização apenas de mulheres?

Bem… Eu sempre me choco quando mulheres jovens e artistas mulheres pensam que não há mais tal coisa como o sexismo. Eu fico sempre chocada! Eu acho que é realmente importante que mulheres apoiem mulheres. As coisas já são muito melhores do que costumavam ser, mas eles não são iguais no mundo da arte e eles não são iguais na vida em geral. Eu estava tendo uma conversa com alguém que disse que as Guerrilla Girls eram super radicais e eu fiquei tipo… “Eu não acho que elas sejam ‘radicais’”. Então eu acho que é realmente importante que lugares como a A.I.R. existam. Eu meio que queria que não fosse importante. Como se eu desejasse que a A.I.R. não precisasse existir. Mas ela ainda precisa existir.

Você acha que o mundo da arte ainda é machista?

Com certeza. Mesmo quando as mulheres são representadas, muitas vezes os trabalhos não são vendidos pelos mesmos preços que os dos homens. Eu sei que é meio subjetivo o modo como você precifica o trabalho, mas definitivamente as mulheres têm trabalhos com preços menores que os dos homens.

E como você vê a sua geração sobre estas questões?

Realmente depende. Quando entrei para o curso de Artes, eu tinha 6 anos a mais do que os meus colegas – eu tinha feito um outro curso de graduação antes. E lá eu fiz uma aula de arte feminista. Eu realmente nunca tinha me considerado uma feminista ou tipo… eu meio que pensava em feminismo como uma palavra “ruim” (risos). Até eu entrar nessa turma de arte feminista e ouvir minhas colegas dizendo que não havia necessidade para isso, que não importava mais, que estava tudo bem, está tudo ok. E eu fiquei tipo… “Ei, espera. Eu me sinto muito passional sobre isso. E vocês estão erradas, não estão vendo? “. E eram mulheres dizendo essas coisas, muito mais do que os homens. Isso realmente me chocou.

Então essa aula mudou sua ideia sobre o assunto.

Sim. Bem, não necessariamente mudou minha ideia, mas a forma como eu me expressava. E também meu próprio trabalho. As pessoas costumam dizer “Ah, seu trabalho é feminista”, mas o que isso significa, afinal? Por que você está dizendo que o meu trabalho é feminista? Só porque eu sou uma mulher e uso tecidos no meu trabalho? Mas agora eu encaro tipo… “Ok, tudo bem”. A obra é feminista no sentido de que parte dela se sustenta a partir de um desejo de tomar algo que é considerado interno e dar-lhe lugar próprio no mundo da arte.

Eu ia perguntar isso: há alguns artigos que dizem que, no passado, alguns materiais e alguns gêneros artísticos foram associados à “arte de mulheres”. Isso acontece com você?

Sim. E também acontece de associarem o trabalho a artesanato… Eu sempre chamo meu trabalho de escultura, eu tento não chamá-lo de arte têxtil. Pode ser apenas uma coisa de ego, mas eu acho que parte também de uma ideia que ainda existe de que arte têxtil vale menos, que não não é parte da arte mainstream.

Qual é o papel da A.I.R. na sua carreira?

No momento, sinto a A.I.R. como uma espécie de casa e também como um ponto de partida. Eu acho que essa comunidade realmente me deu uma oportunidade que eu não teria tido. Agora eu tenho colecionadores e outras pessoas me dão mais confiança para tentar obter outras exposições e ir atrás de outras galerias. Também acho que o fato de estar na A.I.R. e saber que vou expor novamente em breve me dá uma espécie segurança. Acho que a minha prática de trabalho, por vezes, é influenciada por isso – se eu não tenho por o que trabalhar, eu acabo não querendo trabalhar.

Como é o diálogo com as outras integrantes da A.I.R., já que você é parte de uma nova geração da galeria e há membros que estão lá há mais de 40 anos?

Quando eu não estou em uma das reuniões mensais que fazemos, eu me sinto um pouco tímida, mas nas reuniões eu sinto como se eu tivesse uma voz tão válida quanto qualquer outra ali dentro. É interessante. Eu acho que eu nunca participei de uma organização como essa, com 20 mulheres tomando decisões. Mas também é interessante pensar em como construções sociais sobre o que as mulheres podem reivindicar acabam aparecendo nessas reuniões. Na última reunião que tivemos, houve uma discussão acalorada sobre um pagamento, era algo do tipo: “devemos pagar estas pessoas o valor total combinado, embora elas não tenham cumprido o que estava no contrato?”. Então foi interessante pensar que, mesmo na A.I.R., esta organização feminista que capacita mulheres, ainda há algumas dinâmicas de gênero acontecendo ali, mesmo quando não havia nenhum homem presente. Achei muito interessante, algo para se estar ciente. Já há todos esses estudos sobre como as mulheres não pedem aumentos, ou como as mulheres pedem aumento versus como os homens pedem aumento. Talvez seja eu, mas isso é algo sobre o qual penso muito – qual é o meu valor? Eu estou reivindicando este valor? Eu vi que esse tipo de questão estava presente nesta última reunião que tivemos.  Fico interessada em observar o que mais se sobressai em termos dessas estruturas sociais.

Desde os anos 70, quando a A.I.R. foi criada, muitas coisas foram realizadas por mulheres, mas ainda há muito a fazer. Qual você acha que é a questão para as mulheres hoje? Permanecem as mesmas?

Eu não sei. Eu fui a um painel de discussão em que havia várias feministas da segunda onda do feminismo. Algumas delas estavam dizendo coisas sobre “o que é o feminismo”, e eu me senti tipo… “Eu não sei se eu concordo com isso”. Então … qual é a questão agora? É apenas uma questão de mulheres? Porque há também outras minorias e há homens nessas minorias. O que é o feminismo agora? Eu acho que as coisas básicas sobre igualdade de direitos e igualdade de salários ainda são as questões básicas. Eu acho que a questão é, talvez, para mim, algo tipo… Eu estou ocupando o espaço que mereço? Eu reivindico aquilo que mereço? E não é necessariamente uma questão de dinheiro. Se eu valorizo ​​meu trabalho artístico, então eu posso ir atrás de oportunidades que eu penso que eu mereço. Claro que aí há muitas outras questões sobre o mercado de arte, concorrência, etc, mas, basicamente, a questão seria: eu estou ocupando este espaço?

E você está?

Na maioria das vezes, penso que estou.

3Triangles-1

Susan Stainman. THREE TRIANGLES
Plexiglass, Fabric, Elastic. 2014

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