Entrevista com Sara Mejia Kriendler: “Quando você vê as estatísticas de exposições, de vendas, é impossível dizer que o mundo da arte não é sexista.”

Sara Mejia Kriendler participou do Fellowship Program da A.I.R. Gallery entre 2014 e 2015 e sua exposição individual, ao final do programa, estreou o novo espaço expositivo da organização no Brooklyn, em Nova York. Primeira galeria cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos, a A.I.R. desenvolve o Fellowship Program desde 1993 como forma de orientar, fortalecer e viabilizar a carreira de mulheres que estão iniciando sua trajetória artística. “Foi ótimo. Foi muito intenso. Acho que, quando eu me inscrevi, eu não percebi o quão intenso seria.”, relata Kriendler. Além da experiência no projeto, a artista fala sobre questões do consumismo, geologia e meio ambiente que estão incorporadas em sua produção artística.

A entrevista com Sara Mejia Kriendler fez parte do projeto “Mulheres na Arte Contemporânea – A.I.R. Gallery”, desenvolvido em Nova York entre abril e julho de 2015 pela jornalista Isabel Waquil.  Contemplado no Edital Conexão Cultura Brasil Intercâmbios 01/2014, o projeto consistiu em uma pesquisa realizada através do método da entrevista sobre a A.I.R. Gallery, a primeira cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos.

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Como foi a experiência no Programa Fellowship da A.I.R.?

Foi ótimo. Foi muito intenso. Acho que, quando eu me inscrevi, eu não percebi o quão intenso seria. Tivemos reuniões quase todas as semanas. As reuniões eram diferentes workshops, por exemplo, “Como falar com a imprensa”. Esses workshops geralmente eram conduzidos por alguém de fora da galeria. Nós também acabamos conhecendo muitas outras pessoas por causa desses encontros, foi ótimo. Tivemos vários workshops, uma série de eventos na galeria, aberturas. Foi algo bem envolvedor.

E como foi a experiência de estar em uma instituição apenas de mulheres?

Essa foi minha primeira vez em uma instituição só de mulheres. Bem, na verdade, eu tenho um grupo de amigas com quem eu me encontro, nós chamamos de “Creative Circle”, e todas nós somos mulheres. Nem todas são artistas, mas todas estão fazendo coisas criativas, de modo que foi o único outro espaço apenas de mulheres em que eu estive. A A.I.R.  foi um ambiente muito favorável. Eu não sei se eu senti diferença para outros ambientes, mas conheci algumas pessoas maravilhosas, outras artistas Fellowships, etc.

O aspecto comunitário tem aparecido muito nas entrevistas com as membros da A.I.R.. Você também o percebe?

Sim, definitivamente. Há sempre uma comunidade interagindo com você, e em todas as partes do programa havia alguém para ajudá-la. Por exemplo, você tem que escrever o release de imprensa para sua exposição e você está fazendo isso em conjunto com alguém da galeria. Tivemos uma série de reuniões sobre o trabalho antes da exposição. Em outro ambiente, talvez seria apenas você em seu próprio mundo sem feedback. Em alguns aspectos, essa era a parte mais benéfica. Depois da Universidade, eu estava trabalhando no meu ateliê sozinha, e esta foi uma das razões pelas quais eu me inscrevi para o programa, para ser parte de uma comunidade de novo e não ficar apenas isolada no meu ateliê. Era importante a reunião com outras artistas, falar sobre o trabalho, aprender coisas novas. E também as artistas que conheci estavam fazendo tipos de trabalho totalmente diferentes; as artistas do programa não têm necessariamente um estilo em comum. Elas são de diferentes origens, por isso era tudo novo. Foi uma ótima experiência.

Você tinha ideia do que queria apresentar na exposição individual, ou foi algo que foi crescendo?

Foi algo que foi crescendo. Eu não tinha ideia do que ia apresentar. Foi particularmente desafiador, porque a galeria estava mudando de endereço, então eu não sabia o espaço que eu teria até um mês antes da exposição. Normalmente, eu uso o espaço muito mais – sabendo o tipo de espaço que vou ter. Mas eu tive que ser mais flexível, funcionou de forma diferente e foi ótimo! Foi um pouco assustador, mas acabou dando certo para mim. Eu fiz todas as obras três meses antes do show.

Foi um processo intenso, então.

Sim! Isso também aconteceu em função de um outro aspecto do programa, que foi outra parte muito importante para mim. O programa é composto por júris; todas as membros julgam os trabalhos, mas há também três juradas externas que ajudam a selecionar as artistas e, em seguida, cada uma das artistas têm uma visita no ateliê de uma destas juradas. E elas eram artistas renomadas, realmente mulheres fantásticas. Eu tive uma visita ao estúdio incrível com uma das juradas e a visita mudou o trabalho que eu estava fazendo. Esse momento teve realmente um grande impacto em mim.

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Sara Mejia Kriendler ‘The Anthropocene’ (source: A.I.R.’s Facebook)

Como você vê a cena de arte aqui em Nova York?

Bem, eu não tive exposição em uma galeria comercial em Nova York, então eu não posso comentar sobre esse lado da cena de arte, mas penso que realmente depende para qual parte de Nova York você olha, porque há muitas cenas diferentes na cidade. Se você está olhando para a cena mais tradicional, eu diria que a A.I.R.  é drasticamente diferente da estrutura de uma galeria comercial. Mas também há muitos novos espaços e eles não são tradicionais, eles estão tentando coisas novas.

Você acha que o mundo da arte ainda é machista?

Bem, eu acho que o mundo é machista! Então eu acho que o mundo da arte é, portanto, sexista. Mas eu não experimentei pessoalmente … Bem, eu tive um professor que, em um certo ponto, disse a uma colega que ela não deveria assinar o seu trabalho com seu primeiro nome para que as pessoas não soubessem que ela era uma mulher. Esse é um exemplo de machismo claro que eu me lembro.

Mas você acha que ele disse isso no sentido de que o trabalho seria desacreditado se soubessem que era de uma mulher?

Penso que foi mais no sentido de que as pessoas não ficariam tão inclinadas a comprá-lo. Eu era muito jovem na época e eu pensei que aquilo era loucura. Quer dizer, quando você vê as estatísticas de exposições, de vendas, é impossível dizer que o mundo da arte não é sexista. Por outro lado, eu sinto que há uma série de oportunidades em Nova York e eu tenho certeza que em outros lugares é muito mais difícil ser uma mulher artista, então eu geralmente me sinto grata por haver tantas oportunidades aqui e lugares como a A.I.R., assim como um monte de artistas mulheres surpreendentes – que é a parte mais inspiradora.

Quando você começou a incorporar resíduos do consumo em seu trabalho?

Quando me mudei para Nova York, eu tinha um ateliê no Chelsea e estava fazendo a faculdade lá também. Até então, eu nunca havia usado no meu trabalho objetos encontrados. Mas havia muito lixo em todos os lugares. Eu nunca tinha visto tanto lixo. E, especialmente, no Chelsea e outros bairros com aqueles condomínios gigantes, há  montanhas de material no lixo. Eu comecei a coletar no lixo e tenho usados estes materiais desde então. Foi engraçado, porque eu tinha uma exposição na Áustria e eles queriam que eu fizesse uma instalação de isopor encontrado na rua. Nessa época, eu estava fazendo estas instalações arquitetônicas de isopor. Mas isso era em uma pequena cidade na Áustria – o quanto de lixo eles possivelmente poderiam produzir? Eu só tinha um mês para fazer a exposição, então eu tive que pedir para eles recolherem isopor por 3 meses antes da exposição, a fim de ter material suficiente para fazer o trabalho. Em Nova York, eu provavelmente poderia ter obtido essa quantidade em uma semana.

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Sara Mejia Kriendler ‘The Anthropocene’ (source: A.I.R.’s Facebook)

Como você chegou a Anthropocene, essa  exposição na A.I.R.?

Boa parte da minha inspiração para a exposição veio de esculturas em relevo e da história das esculturas em relevo. Eu estava pensando não só sobre o conteúdo ou a narrativa, mas também sobre os materiais. Eu estava pensando muito sobre pedras e também havia usado muito gesso no meu trabalho, então eu estava pesquisando de onde o gesso vem. Eu estava usando gesso há anos, mas não tinha ideia de onde ele vinha: ele vem de cavernas, é um cristal. É uma das coisas mais bonitas que eu já vi. Se você ainda não viu, você tem que procurar fotos. É incrível, é lindo.

Eu não tinha ideia que gesso vem de um cristal.

Sim, e ele cresce de formas totalmente diferentes dependendo do ambiente. No deserto, ele cresce na forma de uma flor e é chamado de “a rosa do deserto”. Há também campos de gesso. Nos Estados Unidos, há um parque nacional para a preservação de um campo de gesso. Isso acabou me levando à geologia. Eu estava pensando sobre a geologia e as marcas que estamos deixando em pedras e esses depósitos que estamos deixando. Na minha pesquisa, me deparei com a Anthropocene, que é esta questão sobre a qual os geólogos estão discutindo agora. Foi uma descoberta acidental, mas, considerando o meu pensamento sobre a geologia e o consumismo, esse também se tornou o título perfeito para a exposição.

Como você vê o diálogo entre arte e ciência?

Eu definitivamente não considero o meu trabalho científico. Eu acho que alguns artistas estão fazendo um trabalho artístico de forma mais científica, o que é muito interessante. Mas eu não. Ciência serve como uma inspiração, mas não é uma parte da minha produção ou do processo real. Eu acho que a ciência é um ponto de partida incrível em termos de imaginação. Que é talvez uma estranha forma de pensar sobre isso. Eu fiz uma aula na Universidade que era A História Intelectual da Ficção Científica. Então estávamos estudando as descobertas científicas e, em seguida, lendo romances e ficções científicas que foram inspirados por essas descobertas científicas reais. Essa aula realmente me inspirou; usar a ciência como um ponto de partida, como uma maneira de expandir o que é possível. Onde isso pode levar a minha imaginação? No meu trabalho, eu entendo a ciência como essa ferramenta para a minha imaginação.

Você vê o seu trabalho com um discurso político?

Hesito em dizer que é político, porque eu não tenho um ponto de vista ou mensagem específica que eu estou tentando colocar ali. Mas eu vejo como algo crítico, como uma maneira de lidar com os conflitos das minhas experiências. Por exemplo, eu estava assistindo a um vídeo da FAO Schwarz, que é esta grande loja de brinquedos em Nova York, é a mais antiga nos Estados Unidos, na 5a Avenida. Eu cresci indo para lá. Brincava com todos os brinquedos. Mas agora eles estão mudando de loja e por isso é o fim de uma era. Então, eu estava assistindo a vídeos da antiga FAO Schwarz e fiquei maravilhada com todos os brinquedos incríveis, mas também pensei: “Isso é nojento”, “Todas essas coisas são totalmente ridículas, ninguém realmente precisa de nenhuma delas. É um material barato, alguém vai brincar com isso por um ano e, em seguida, vão jogar fora”. Então, eu não sei se eu diria que meu trabalho é político ou que eu estou tentando transmitir algum tipo de mensagem, porque eu não tenho uma mensagem clara, é mais a minha reação a sentimentos conflituosos e, ocasionalmente, é uma revolta com este mundo louco em que vivemos. Por isso, o trabalho é a minha reação a estes conflitos.

Eu também estava lidando com a sensação de que somos realmente a primeira geração que cresceu com a ideia de que está destruindo o planeta. Eu lembro de ter ouvido, desde que eu tinha 2 anos de idade, sobre a camada de ozônio, animais que estão entrando em extinção, a floresta tropical na América do Sul que está sendo destruída. Não há outra geração que tenha tido esta experiência. Durante a Guerra Fria, eles estavam preocupados com um desastre nuclear que iria acabar com o planeta, mas as pessoas não estavam pensando durante sua vida inteira que elas estavam destruindo o planeta. Eu acho que isso me afetou muito. Eu acho que isso afeta a todos que estão crescendo agora. Deveria estar! Mas eu acho que a pressão de ter que me preocupar com isso se tornou definitivamente uma grande parte do meu trabalho e algo que eu não posso ignorar.

E sobre a obra que tem um corpo feminino – como você chegou a este trabalho?

Eu estava olhando para um monte de esculturas em relevo e as narrativas nessas esculturas. As que mais me interessavam eram as únicas com personagens femininas. Há ícones budistas surpreendentes que são deusas incríveis, há também as Marias, e há rainhas, e anjos… eu estava interessada nessas representações incríveis de mulheres em esculturas em relevo. Eu queria fazer uma versão contemporânea e pensar em como eu poderia usar a tradição, mas falando mais sobre a atualidade. Então eu comprei uma boneca da Mulher Maravilha para trabalhar nela, mas quando eu a retirei da embalagem, percebi que eu gostei mais do pacote do que da própria boneca, porque reuniu duas ideias importantes – o interesse em protagonistas femininas, mas também em embalagens e resíduos. Foi tudo por causa de uma boneca. Mas eu não queria usar apenas bonecas, tentei encontrar outras formas femininas. Essa, então, é uma manequim na qual penduram biquínis e camisetas. Eu particularmente gostei porque é estranhamente exagerada, mas também abstrata. Eu apenas pensei que esta era uma combinação interessante. Essa foi a inspiração para essa obra.

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Sara Mejia Kriendler ‘The Anthropocene’ (source: A.I.R.’s Facebook)

Você acha que homens e mulheres têm diferentes sensibilidades artísticas ou não podemos distingui-las?

Eu não generalizaria. Há alguns traços específicos, mas eu acho que há muitos cruzamentos entre os dois sexos. Há muitas sensibilidades para eu classificar alguma. Eu não sei. Eu não diria categoricamente. Talvez as mulheres tendam a fazer alguns tipos de trabalho, ou usar alguns materiais, mas eu não sei se isso é um instinto natural, a pressão da sociedade, ou uma questão de história. Eu não acho que é algo necessariamente hereditário. Mas eu acho que, como uma mulher artista, você pensa sobre isso. E isso eu acho difícil.

O que você quer dizer?

Se você conhece a história do que é conhecido tradicionalmente como “arte de mulheres” ou o que é considerado trabalhado por mulheres, há uma pressão… não uma pressão, mas você pensa: “Você quer seguir essa tradição? Você quer romper com ela? Você quer reagir a isso?”. E se você está evitando ativamente esse rótulo – arte de mulheres – , o que isso significa? Eu definitivamente sinto essas questões e conflitos em meu trabalho.

Essas questões influenciam seu trabalho?

Eu penso sobre as consequências. Eu acho que, quando eu era mais jovem, eu queria fazer coisas mais monumentais para evitar que o trabalho fosse classificado como feminino. Eu acho que, como mulher, isso é algo em que você acaba pensando. Já como homem, você não tem que pensar nisso. Eu não sei. Talvez os homens também tenham que pensar sobre isso. Por outro lado… ok, então você está tendo seu trabalho associado com um trabalho feito por uma mulher. O que há de errado com isso? Esse é o conflito. Talvez isso seja o sexismo no mundo da arte.

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