Entrevista com Jane Swavely: “Eu sempre fui a última pessoa a falar em uma sala. Hoje eu sou a primeira. “

Jane Swavely, artista e presidente do Conselho Administrativo da A.I.R. Gallery, primeira cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos, fala sobre a cena de arte em Nova York hoje e nos anos 80, o papel da A.I.R como uma organização que dá visibilidade para mulheres e sobre sua pesquisa artística em pintura abstrata.

jane

Untitled Landscape, 2012, 56×162 inches, oil on canvas

ISABEL WAQUIL – Como você entrou na A.I.R.? Como foi o início da sua história com a instituição?

JANE SWAVELY – Foi interessante. Eu era uma jovem artista e estava expondo meu trabalho com vinte e poucos anos. Eu também trabalhava como assistente de um artista muito conhecido. Nessa época, quando me mudei para Nova York nos anos 80, eu conheci Joan [Snitzer, membro e ex-diretora da A.I.R.] e ela sempre falou sobre A.I.R.. Eu pensei que era uma iniciativa interessante. Naquela época, eu era representada por uma galeria comercial, e, na verdade, depois que eu tive meu primeiro filho, eu não estava expondo muito. Eu fiquei com aquela galeria até 2005. Joan e Susan Bee me disseram então para aplicar para a A.I.R.. Eu me inscrevi, mas não fui selecionada. Eu reapliquei há três anos e então, sim, fui aceita por unanimidade. Tem sido uma experiência incrível. Eu percebi como as coisas se descarrilaram desde que eu entrei na A.I.R., tanto na minha vida quanto na minha carreira. Claro, é difícil fazer tudo, especialmente neste país, onde é difícil ter ajuda e dar conta de tudo, ser mãe, ser artista. É um equilíbrio difícil.

Eu vi em seu currículo que você expõe em Nova York desde o início dos anos 80. Como você acha que esta cena de arte mudou, e como você acha que ele mudou para as mulheres?

Na década de 80, eu pude trabalhar como assistente de arte para várias pessoas, eu pude estudar artes e eu pude morar em um loft em Nova York. Isso já não acontece mais. Os imóveis em Nova York são caríssimos, especialmente em Manhattan, Brooklyn e a situação está se tornando cada vez mais difícil. A competição por espaço e atenção … Eu sinto que todo mundo parecia ajudar uns aos outros, naquela época. E há tanta informação hoje em dia…. E não é apenas a questão dos imóveis, mas também do mercado de arte. Eu vejo isso com as artistas que participam do Fellowship Program na A.I.R. [programa que auxilia artistas em início de carreira]. A fim de ter espaço de ateliê, elas têm que pular de residência para residência artística. É realmente muito difícil se fixar hoje, especialmente em Nova York. Encontrar a A.I.R. e esta comunidade de pessoas dá uma espécie de base. Dá a você a capacidade de fazer o que quiser fora desse espaço, mas você sempre terá este espaço seguro para experimentar e compartilhar o que você deseja mostrar. Eu também não tinha percebido o quão complexa a organização era. Uma vez que eu percebi, eu me tornei ativa e autônoma de formas que eu nunca tinha pensado. Não só em relação ao meu trabalho artístico, porque eu entrei em contato com colecionadores antigos, mas também no sentido de que é a nossa galeria. Nós possuímos o espaço. E podemos tomar as decisões. Eu sempre fui a última pessoa a falar em uma sala. Hoje eu sou a primeira. A A.I.R. trabalha em níveis diferentes. Também é interessante que a educação artística mudou. Há certas disciplinas que estão sendo ensinadas hoje que não foram ensinadas quando eu era estudante. Disciplinas conceituais, de teoria crítica.

E antes os currículos eram mais técnicos?

O meu foi. Eu fui para a Universidade de Boston, que é muito tradicional, e depois fui para a Escola de Artes Visuais (SVA) aqui em Nova York. Foi uma época muito diferente. Eu não fiz uma pós-graduação, por exemplo. E também eu me lembro que quase ninguém fazia mestrado naquela época. Lembro que quando Joan decidiu faz a pós-graduação eu pensei: “Por que ela decidiu fazer isso?” (risos). E agora que você “tem que ter” a pós, estes diplomas. Eu tive professores na SVA que eram grandes pintores e não tinham terminado a graduação.

No Brasil há a mesma questão. No espaço de arte onde eu costumava trabalhar, não foi possível inscrever um projeto de exposição em um edital porque o artista que iria expor não tinha graduação em artes. Foi uma loucura, porque ele tem uma carreira incrível, mas não um diploma, e por isso não pudemos fazer esta inscrição.

Isso não é louco? Essa é a diferença. Eu estava em uma feira de arte aqui em Nova York, eu acho que foi a feira NADA, e havia um cara muito interessado no trabalho de uma artista, mas antes de saber qualquer coisa sobre o trabalho, ele queria saber onde ela havia estudado, onde ela havia exposto, todo seu CV. Eu não sei se isso teria acontecido na década de 80. Vejo que há também um “flash back” hoje em dia. Artistas mulheres mais velhas estão sendo redescobertas. Há uma galeria no Chelsea onde eles estavam procurando artistas mais velhas que estavam sub-representadas. Eu achei aquilo fascinante. De repente, parece que todo mundo está falando e expondo sobre isso. Há uma série de painéis, artigos no New York Times, mulheres mais velhas expondo…

Quem, por exemplo?

Por exemplo, Hedda Sterne. Ela foi uma das poucas artistas que obteve reconhecimento na época dela, mas depois foi esquecida. Há uma capa da revista Life chamada The Irascibles, e na foto estavam Rothko, de Kooning, Pollock, todos esses artistas, e Hedda Sterne. Há uma obra dela ao lado de De Kooning no Whitney agora. Ela havia sido esquecida. No final dos anos 90 e início dos anos 2000, uma galeria redescobriu seu trabalho. Ela já estava em seus 90 anos, nessa altura. Nós também estamos muito preocupadas agora com o nosso legado. Muitas mulheres estão preocupadas sobre para onde seu trabalho vai. Quem é que vai cuidar dele? E quem vai se importar? Eu acho que não estávamos tão preocupadas com isso no passado, porque nós não nos importávamos o suficiente sobre nós mesmas, mas agora é diferente. Esta é uma outra questão feminista. Eu acho que agora vivemos um momento muito interessante.

Você é presidente do Conselho de Administração da A.I.R.. Em um documento escrito por Naomi Urabe sobre a administração da galeria durante a década de 90, ela diz que os comitês da galeria deveriam trabalhar em estreita colaboração com o Conselho de Administração, especialmente por causa do poder e influências desses diretores. Como é essa relação hoje?

Essa foi a minha preocupação quando entrei na A.I.R.. Eu senti que o Comitê Executivo tinha muita energia. Quase como se fosse poderoso demais, de uma forma. Eu sinto que agora ele se transformou, porque tentamos trazer tudo para a votação do grupo. Às vezes não é muito eficiente, mas eu sinto que as integrantes da galeria realmente têm que votar sobre as coisas que estão acontecendo.

Qual você acha que é o desafio da organização hoje?

O maior desafio é com o setor imobiliário e com o financiamento. E, claro, certificarmo-nos de que somos relevantes, de que realmente temos um espaço seguro para as mulheres – todos os tipos de mulheres e todos os tipos de comunidade. Eu sinto que o aspecto comunitário é realmente importante. Eu penso que é esse espírito de comunidade que vai fazer A.I.R. sobreviver.

Você acha que o mundo da arte ainda é machista?

Sim. Tenho certeza. Acho que as coisas são muito melhores hoje, claro. É engraçado, porque quando entrei pela primeira vez no mundo da arte, essa questão nunca me ocorreu. Saí da faculdade em 1981 e nunca me ocorreu que havia um problema. Porque o movimento feminista já tinha se desenvolvido e eu senti que eu era uma beneficiária dele. Mas quando você olha para o aspecto financeiro, as mulheres ainda são pagas com valores menores no mundo da arte. E ainda existe o aspecto doméstico, de a mulher ser a cuidadora de uma família. Eu acho que muito progresso foi feito, mas ainda há muito a se fazer.

Sobre seu trabalho com pinturas – as paisagens vêm de experiências reais, ou de seu imaginário?

De experiência reais. Eu tenho um histórico acadêmico muito tradicional. Eu estava estudando na Escola de Artes Visuais em Nova York e as figuras foram desaparecendo e dando lugar às paisagens. Eu também passo muito tempo no interior e na água, velejando. Tudo é apropriado no trabalho. Também trabalho muito com as fotografias que tiro. Não literalmente, mas como inspirações. Ultimamente eu tenho achado que os trabalhos até não se parecem tanto com paisagens. Eu trabalhei por muito tempo com Brice Marden e seu minimalismo me influenciou muito também. Seu trabalho me informou tremendamente. Até a minha prática no ateliê, com os materiais que eu uso.

Que tipo de paisagens inspiram você?

Montanhas, florestas. Eu estou realmente interessada na cor, evocando os aromas de paisagens. Eu amo pintar, eu amo as cores, eu amo os materiais. Eu amo esticar a lona, essas coisas do exercício.

A experiência física.

Sim, é uma experiência física performativa. Eu trabalho no chão. Tudo isso faz parte do fazer de uma pintura. Não é muito organizado, muitos acidentes acontecem.

Você disse sobre o seu trabalho: “pintura é um diálogo implícito com o espectador, aquilo o espectador pode trazer”. O que as pessoas costumam trazer do seu trabalho? Você estabelece esse tipo de interação com o público?

Sim, às vezes. Eu também tenho muitos amigos cineastas, eu gosto do jeito como os filmes funcionam. Eu estava fazendo pinturas que eram sequências longas, como frames de um filme. Essa foi a última exposição que eu fiz. Eu sinto que era como um filme que funcionava de forma abstrata. Mas eu não quero empurrar o espectador em uma direção.

Susan Bee falou sobre algo interessante na entrevista dela, sobre feministas artistas que trabalharam com pinturas abstratas.

Sim, eu li isso também. Eu não me considero um artista feminista – e essa é uma das razões pelas quais eu pensei que eu não me encaixava na A.I.R., porque meu trabalho artístico não é político, ele não trata de questões políticas. Eu encontrei esta frase que eu gosto, que é: “Uma das liberdades pela qual as primeiras feministas lutaram foi a libertação da expectativa de que as mulheres fazem arte apenas sobre ser mulher”. Eu amo isso. Então, para mim, é apenas sobre fazer o que você quer fazer. Eu tenho muito respeito pelas mulheres que tratam de questões sociais e questões políticas em suas obras, eu acho que é importante, mas isso não faz parte da minha prática. Sou uma pintora da velha escola, mas eu sinto que sou feminista no sentido de que quero ser ouvida e quero que o meu trabalho seja visto e valorizado.

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