Entrevista com Judith Bernstein: o último bastião

Foi na Universidade de Yale, nos 1960, que Judith Bernstein mergulhou no mundo das fantasias masculinas – e das suas próprias – ao deparar-se com os grafites que os estudantes faziam nas portas dos banheiros masculinos. Desde então, figuras fálicas e sexuais têm sido protagonistas nos discursos anti-guerra e feminista que permeiam sua produção artística há mais de 40 anos. De pênis a vaginas, passando por parafusos, números e bandeiras, as obras de Bernstein desenvolvem-se a partir do universo particular da artista e culminam em verdadeiras explosões gestuais nas quais a crueza das representações dialoga com a sutileza de simbolismos que ali se constroem. Bernstein infantiliza homens, critica guerras e “desromantiza” ao mesmo tempo em que empodera mulheres. De temperamento bem humorado e provocador, Bernstein foi co-fundadora nos anos 1970 da A.I.R. Gallery, a primeira galeria cooperativa de mulheres artistas do Estados Unidos e integrou grupos como as Guerrilla Girls e o Fight Censorship Group durante os anos 1980. Censurada em 1974, a artista teve seu trabalho “redescoberto” apenas em 2012 com uma exposição dedicada à sua trajetória no New Museum, em Nova York. Desde então, tem gozado de uma grande visibilidade em galerias, feiras e museus, integrando coleções permanentes como a do MoMa. “Os tempos mudaram e agora eu estou no lugar certo, na hora certa”, afirma.

FIVE PANEL VERTICAL 1973 Charcoal on Paper each panel 15x5 ft overall 15x40ft_conversion

ISABEL WAQUIL – Você fez parte do grupo que fundou a A.I.R. Gallery em 1972. Como foi o início dessa história?

Judith Bernstein – Eu vou te dizer uma coisa. Naquela época, eu estudava na Universidade de Yale, na Yale School of Arts, que era uma faculdade voltada para homens. O que acontecia era que as mulheres que se formavam na Yale, no Chicago Institute e em muitas outras escolas de renome não tinham acesso ao sistema. Não tínhamos lugar para mostrar nosso trabalho. Então, nós começamos uma galeria. E era uma galeria só com mulheres. Barbara Zucker, Susan Williams, Dotty Addie e Mary Grigoriadis começaram o grupo. Zucker teve a ideia. Elas falaram com Lucy Lippard, que estava fazendo um levantamento de mulheres artistas e olharam aquele arquivo e escolheram artistas com quem gostariam de começar a galeria. Elas queriam mulheres fortes. Mulheres que tinham voz. Mulheres que tinham unicidade. Elas queriam as melhores. Então, elas visitaram muitos ateliês. Elas foram ao meu ateliê e foi ótimo; naquela época eu não tinha acesso ao sistema e estava empolgada para ser parte dele. Então, nós começamos esta galeria.

Como surgiu o nome A.I.R.?

No início, havia esse problema sobre o nome do espaço. Todas as galerias tinham nomes de diretores. Howardena Pindell falou “Jane Eyre”, e nós achamos que “Air” era ótimo. “Air” era ótimo por uma série de razões que, na época, não vimos. Uma era que o trabalho na galeria era mais conceitual do que qualquer outra coisa, por isso, “Air” foi perfeito. Além disso, “AIR” era a sigla para “Artist in Residence” (Artista em Residência), expressão que se referia aos artistas que viviam nesses lofts em Manhattan, no SoHo, algo que era ilegal. Se o Corpo de Bombeiros via “AIR” escrito em algum prédio, eles sabiam que havia artistas vivendo lá e os despejavam destes lofts. E assim começou a A.I.R.. Na época, eu disse: “Vamos chamar de TWAT (vagina)”, sigla para twenty women artists together (vinte mulheres artistas juntas). Foi uma brincadeira, eu estava à frente do meu tempo. Ninguém levou a sério.

Quais são suas lembranças mais marcantes desse período?

Bem, eu vou te dizer uma coisa. Era maravilhoso, foi uma experiência extraordinária. Realmente foi. Eu fiz a primeira exposição individual da galeria em Outubro de 1973. Fiquei muito feliz de sentir que eu era parte do mundo da arte. Sentir que o meu trabalho estava sendo validado e estava circulando. Tivemos um lugar onde as mulheres tinham uma base. Como um santuário, em alguns aspectos. Naquela época, as cooperativas eram legitimadas dentro do circuito. Agora, há muito menos interesse em cooperativas. Mas devo dizer que também havia muitos berros e gritarias. Era como uma família. Uma família disfuncional.

Você disse que era difícil entrar no sistema da arte naquela época. Como você vê essa situação hoje? Você acha que o mundo da arte ainda é machista?

As coisas mudaram muito. Isso não significa que elas mudaram tanto quanto eu gostaria. Há muitos fatores envolvidos aqui. Os homens se sentem mais no direito. Eles são mais agressivos. E o mundo da arte premia isso. Mas eu diria que há muito mais mulheres expondo agora do que jamais houve. E isso é maravilhoso. Entretanto, o trabalho das mulheres é muito menos valorizado do que o dos homens. Muito mais barato. E mesmo as mulheres que estão no topo, como Barbara Kruger, Cindy Sherman – mulheres que fazem um trabalho maravilhoso e que vendem bastante – têm suas obras vendidas por preços muito menores do que os dos homens. Eu não posso dizer que isso é justo. Mas é muito melhor do que já foi. Quando nós estávamos começando, se você tinha uma exposição de escultura apenas com mulheres artistas, as pessoas diziam que era uma exposição feminista. Mas, se fosse uma exposição só de homens, as pessoas diziam que era uma exposição… de escultura. A atitude em si já era sexista! As coisas mudaram consideravelmente, mas não estou dizendo que elas mudaram o suficiente.

Como foi o seu envolvimento com as Guerrilla Girls?

Eu tinha algumas amigas que eram parte do grupo e foi assim que eu entrei. Elas diziam para as outras, a meu respeito: “Nós temos que tê-la”, esse tipo de coisa. Essa também foi uma experiência extraordinária. Muito estimulante. Falar sobre números. Falar sobre nomes. Funcionou muito bem. Foi engraçado, tinha um efeito meio “porrada”. E a gente fez isso com muito humor. E eu tenho um bom senso de humor. Por isso, participar das Guerrilla Girls foi perfeito para mim, naquele momento. Eu não estava expondo, e as mulheres tinham muita raiva por não estarem recebendo o que elas sentiam que mereciam.

Você sentia essa raiva também?

Ah sim, definitivamente. Além disso, eu venho de um contexto familiar em que a minha mãe também era muito brava. Minha mãe não gostava da vida que tinha. Ela não tinha aspirações para uma carreira, nem sabia o que ela queria, mas ela sabia que não queria aquele tipo de vida. Eu também participei do Fight Censorship Group, grupo em que estava Hannah Wilke, Louise Bourgeois, Anita Steckel, pessoas que tinham um trabalho de natureza sexual. Eu participei de diferentes grupos que lutaram contra a desigualdade, esse era o ponto.

Qual você acha que é a luta das mulheres hoje em dia?

Eu vou te dizer uma coisa. Eu acho que é sempre o acesso ao sistema. Ainda há uma luta por mais igualdade e acesso ao sistema. Não é uma luta para ser um “meio a meio”, mas para haver a oportunidade de mostrar o seu trabalho e de ser validada com o que você tem a dizer.

Em termos de direitos iguais, hoje o país [Estados Unidos] teve uma grande vitória! [No dia da entrevista, 26 de junho, a Suprema Corte decidiu em favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo em todo o país].

Sim, nós tivemos! É uma grande vitória. Estamos conversando em um grande dia. Nós tivemos essa grande vitória em termos de igualdade de direitos. Não é que todos deveriam se casar, mas as pessoas devem ter a opção. E também há certos direitos econômicos que você tem quando é casado. Ainda não é uma situação maravilhosa em todo o país. Há muita homofobia e penso que muitas vezes os homens ficam aterrorizados quando enxergam beleza no corpo masculino. No entanto, acho que percorremos um longo caminho que foi reconhecido pela Suprema Corte.

Como que você começou a usar representações de elementos sexuais em sua obra?

Eu era um estudante na Universidade de Yale em 1967 – hoje eu tenho 72 anos, então estamos falando de quando eu tinha 23, ou seja, há um bom tempo! (risos). Era o momento das manifestações conta a Guerra do Vietnã e do recrutamento de jovens para a guerra. Foi uma guerra muito impopular entre os estudantes e pessoas que tinham algum conhecimento sobre aquele contexto. Havia uma ideia também de que homens mais velhos enviavam os jovens para lutar. Foi horrível. Então eu li um artigo no New York Times que dizia: “Quem tem medo de Virginia Wolf?”, a partir de um graffiti em um banheiro. Eu pensei que aquilo era muito interessante. Corri para o banheiro masculino na Universidade de Yale, uma universidade totalmente masculina, e vi os graffitis e os escritos nos banheiros. Foi um grande momento. Eles eram muito engraçados, cômicos. Era algo que também tinha a ver com as fantasias dos homens no banheiro. Ninguém está lá para criticar, julgar. E, de uma certa maneira, você ativa o subconsciente. Quando você está defecando em uma área, a cabeça está indo para outra. Foi muito divertido. Eu aprendi muito sobre pau, caralho, todas essas coisas. Foi um acesso às fantasias masculinas. Foi ótimo. Eu fiz um desenho de um super homem com um pau 3 vezes maior do que seu tamanho e, em seguida, transferi estes elementos para um contexto anti-Guerra do Vietnã. Então eu comecei a fazer grandes paus sangrentos em telas, tipo algo da castração.

E qual foi a reação das pessoas?

As pessoas acharam aquele trabalho horrível, mas eu vou te dizer uma coisa: nada é mais horrível do que a guerra. Ser recrutado, ser morto. Horrível. Então foi assim que eu comecei. No final dos anos 60, eu comecei a fazer esses desenhos de parafusos. “Parafuso sendo fodido” (screw being screwed), havia essa ideia visual da linguagem. Eu estava fazendo estes desenhos e os parafusos começaram a se tornar cada vez mais biomórficos, cabeludos, e a ter mais destas presenças. E essas presenças eram uma combinação de anti-guerra, sexo e feminismo. Os homens não foram os únicos autorizados a usar essas imagens. Você pode usar qualquer imagem que você deseja! Independentemente de ser homem ou mulher. O parafuso se tornou minha assinatura. Eu queria que as pessoas soubessem que uma mulher tinha feito aquilo. Além disso, foi divertido para mim porque o parafuso, que era minha assinatura, destacava algo da postura masculina. Era também uma questão de ego, o ego dos homens e o meu próprio ego. Depois de um longo período, eu queria criticar as mulheres.

Por quê você queria criticar as mulheres?

Porque as mulheres não são santas. Elas têm seus próprios problemas. Eu não queria que isso fosse algo com o qual eu não pudesse lidar. No passado, muitas vezes, as imagens de órgãos genitais femininos eram romantizadas. Eu não queria isso. As mulheres são bravas, irritadas, as mulheres lidam com o parto, as mulheres dão à luz, as mulheres são extraordinárias. Elas também têm muita raiva, muita brabeza, e eu queria mostrar isso. Agora eu estou fazendo estas obras que são as “Caras de Boceta”. O último bastião!

Em uma entrevista para a Time Out London você disse exatamente isso, que a palavra boceta é o último bastião. O que você quer dizer com isso?

Eu amo dizer a palavra boceta porque é uma palavra as pessoas não dizem. Há muitas outras palavras como pau, foder, que já fazem parte do vocabulário geral. As pessoas não ficam muito chocadas com elas. Boceta ainda é algo mais cru. É tipo “a pior palavra” que você pode dizer. Usei-a por muitas razões. Uma é que quando você usa uma palavra repetidamente, ele perde o poder. Então você tira o poder do lado negativo e o coloca no lado positivo. Além disso, meu trabalho tem humor, mas também tem brutalidade. Então, eu fiz essa obra que é o Buraco Negro (Black Hole) – muitas metáforas aí. Eu fiz o Nascimento do Universo. Também representei os homens nestes trabalhos através de falos que cobriam as bocetas, mas eles eram muito pequenos em comparação com a força da mulher na obra. Ela é a imagem central. Ela é o sol. Eu usei todas essas metáforas. Coloquei dentes nas caras de boceta. Caras de boceta e olhos de pau. Olhos que eram pênis. Eu fiz uma conexão entre a sexualidade e o Universo e todas as coisas que vêm com isso.

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Muito já foi dito sobre o uso que vocês faz destes elementos em seu trabalho – uso político, uso erótico. Como você o entende?

Eu vou te dizer uma coisa. O trabalho que eu faço é mais do que o que eu digo que ele é. Não é apenas a simplicidade do que eu estou representando. É um contexto mais amplo. Você pode entender o trabalho de muitas maneiras. Não é um cartaz. É uma obra de arte. E eu vou para o meu próprio subconsciente para descobrir minha maneira de dizer o que eu quero. Mas há um monte de outras interpretações que você também pode ter. E eu estou aberta a elas! O que quero dizer é que você faz um trabalho e, seja lá como ele for entendido, ele será entendido. Você coloca a obra no mundo para que o mundo faça uma escolha sobre o que está nela. É fácil dizer “Oh, isto é um parafuso”. É mais profundo que isso, há mais nuances. Há mais psicológico. O trabalho fica com você depois que você sai da exposição.

Qual é sua cor favorita?

É interessante, porque entre os tons fluorescentes eu gosto de laranja. No começo, eu pensava que laranja era muito forte e eu estava um pouco em conflito com isso. Então, quando eu tive a exposição individual no New Museum, em 2012, eu estava usando apenas preto e branco e John, meu assistente, disse: “Meu deus, você tem que usar amarelo!!”. E eu gostei do amarelo e do laranja nos tons fluorescentes. Nos outros tons, eu gosto dos vermelhos e vermelhos escuros.

Nesta série de pinturas exposta recentemente na Mary Boone Gallery, em Nova York, você também usa numerologia nas obras. Quais são as origens destes números?

O número que eu mais uso é 13.82 vezes 10 na 9ª potência. Essa é a idade do Universo entendida pelos cientistas. Eu também uso números pessoais, por exemplo, eu nasci em 1942, então eu uso 42. O número favorito do John é 27, por isso eu também uso 27. Minha idade é 72, então usei 72. Também uso 69, que é o clássico número sexual. É realmente o meu universo que eu estou mostrando.Também é algo que tem a ver com “Estou fazendo o que eu estou afim de fazer”, e isso é extraordinário. Eu me sinto muito privilegiada por ter uma voz que é explícita, dinâmica. Eu digo o que eu quero dizer e isso está sendo legitimado através de exposições. Uma coisa extraordinária é que, quando você se torna mais conhecida, pessoas te oferecem exposições com questões específicas para você trabalhar, então você tem a chance de fazer coisas que você não faria de outra forma. E isso é fabuloso. Eu fiz uma instalação, no verão passado, no Studio Voltaire, que era uma antiga igreja metodista. No altar eu fiz esta grande Cara de Boceta, que tinha 5,5 metros por 5,5 metros.

(risos)

Claro que o lugar já não é uma igreja, a obra estava em um contexto de arte, mas havia sido uma igreja, por isso foi muito divertido. Teve um efeito muito visual. Quando eu vi o espaço, logo pensei que era muito belo. Ele dava uma sensação de meditação. E igrejas costumam dar essa sensação. Elas te levam para um ambiente que você sente que é seguro, agradável. A Igreja Católica é um pouco diferente porque é muito hierárquica, mas enfim, o Studio Voltaire era este espaço de meditação muito bonito e foi uma ótima experiência.

Studio Voltaire Birth of the Universe

Você já teve obras censuradas. Como foi isso?

Foi em uma exposição na Filadélfia chamada Focus, Woman’s Work- American Art, em 1974. Era uma exposição apenas de mulheres, queriam mostrar mulheres em diferentes estágios de carreiras. Havia cerca de 100 artistas na exposição e censuraram meu trabalho. Eles disseram algo do tipo “Oh, mulheres ficarão destruídas para sempre com isso”, enfim, eles queriam “proteger” as mulheres. Nós não precisamos dessa proteção, por sinal! Nós não precisamos que você “abra a porta” para nós. Queremos igualdade de salários! Eu não dou a mínima para a porra da porta! Um grupo se reuniu e fez um bottom que dizia “Onde está a Bernstein?”. Mas aquela obra não foi exibida na exposição.

Você acha que homens e mulheres têm diferentes sensibilidades artísticas?

Eu vou te dizer uma coisa. Eu acho que isso até é verdade, mas eu acho que é um “continuum”. Eu não acho que seja claro – um homem fez isso, uma mulher fez aquilo. Nem sempre há uma diferença tão clara. Meu próprio trabalho é muito agressivo, um homem poderia fazê-lo. Então, eu acho que não há essa linha clara, essa distinção. É a condição humana, que é muito mais complexa do que apenas um ou o outro. E, hoje, já somos mais capazes de entender isso.

Em um artigo recente sobre o seu trabalho, é dito que agora você goza de um grau muito maior de visibilidade do que antes. O que aconteceu?

Eu vou te dizer uma coisa. Os tempos mudaram. E eu tenho o zeitgeist deste tempo. Eu tenho a crueza. Eu tenho a brutalidade. Eu tenho o humor. Eu tenho a sexualidade. E os jovens olham isso e pensam, “Hey, eu gosto dessas coisas”. Tem sido maravilhoso. Os tempos mudaram e agora eu estou no lugar certo, na hora certa.

A entrevista com Judith Bernstein fez parte do projeto “Mulheres na Arte Contemporânea – A.I.R. Gallery”, desenvolvido em Nova York entre abril e julho de 2015 pela jornalista Isabel Waquil. Contemplado no Edital Conexão Cultura Brasil Intercâmbios 01/2014, o projeto consistiu em uma pesquisa realizada através do método da entrevista sobre a A.I.R. Gallery, a primeira cooperativa de mulheres artistas dos Estados Unidos.

Saiba mais sobre a A.I.R. aqui

Saiba mais sobre o projeto aqui

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